Capítulo Três: Os Sagrados Talismãs dos Três Grandes Santuários Celestiais
Com o sol da manhã subindo cada vez mais alto, finalmente, a luz dourada penetrou pela pequena janela da parede sul do quarto, incidindo sobre o rosto, o corpo, as mãos de Li Changqing.
Ofuscante.
Ardente.
Queimava.
Li Changqing franziu a testa; sentia ambos os dentes laterais coçando, e sua reação ao sol tornava-se cada vez mais aguda—era uma dor pungente, como se alguém lhe cravasse espinhos afiados ao acaso no estômago e nas entranhas.
Queria tanto beber algo… Por exemplo…
Sangue?
Li Changqing assustou-se com o pensamento súbito e aterrador que lhe irrompeu na mente. “Maldição, os sintomas já evoluíram a ponto de exercer tamanho controle sobre minha consciência? Afinal, antes de eu atravessar para este corpo, que criatura teria mordido este desgraçado para deixá-lo assim?”
Li Changqing tentara inúmeras vezes rememorar o passado deste corpo. Das imagens vagas e fragmentadas, o que mais lhe marcara fora, sem dúvida, a última cena…
Na noite em que despertara nesta nova vida, encontrava-se em uma fábrica têxtil abandonada. O azarado detetive mal adentrara o local com sua lanterna quando, antes mesmo de firmar os pés, uma coisa escura e indistinta—de forma e tamanho impossíveis de distinguir—mordeu-lhe o pescoço!
E então…
Ele acordou. Depois de gastar o tempo de um incenso para sondar sua condição inicial, saiu cambaleante, segurando o pescoço, tomado de terror.
Depois…
Passou a madrugada batendo de porta em porta nas clínicas em busca de socorro, mas, quando finalmente foi atendido, percebeu que, salvo uma dor ardente e persistente no pescoço, não havia qualquer outra ferida.
Depois disso…
Apoiando-se nas memórias do corpo e munindo-se de coragem, Li Changqing retornou ao escritório de detetive. Logo ao abrir a porta, deparou-se com uma jovem fantasmagórica de branco, rosto inocente porém tomado de preocupação: “Li Changqing, precisamos pagar o aluguel!”
…
Após esse episódio…
A experiência de duas vidas, somada à facilidade de extrair conhecimento na era da internet, além dos rudimentos que aprendera na infância junto ao avô—nunca vira um porco subir em árvore, mas certamente vira muitos correrem—permitiram que Li Changqing se adaptasse rapidamente à nova situação. Valendo-se dos fragmentos de memória, dos cadernos de anotações e da ajuda de Tang Xiaoyu, logo assumiu as rotinas do escritório de detetive.
Tudo corria bem, exceto pelos males físicos herdados daquela mordida de origem desconhecida.
Sensibilidade ao calor!
Aversão à luz!
Coceira nos dentes!
Dores pungentes!
Sede de sangue!
E, durante as crises, pelos brancos e finos brotavam-lhe na pele, de dentro para fora!
Todos os sintomas lembravam os relatos do avô sobre a rigidez cadavérica, ainda que houvesse diferenças sutis.
Para experimentar, Li Changqing comprou cinco jin de arroz glutinoso cru no mercado e provou um pouco. Descobriu, para seu espanto, que embora o arroz, ao deslizar pela garganta, ardesse como ferro em brasa, ao chegar ao estômago, surtia efeito!
Os sintomas de rigidez foram notavelmente reprimidos.
Após duas semanas de tentativas, Li Changqing chegou a algumas conclusões: precisava ingerir vinte e cinco gramas de arroz glutinoso cru a cada vinte e quatro horas.
Dobrar a dose de uma vez não prolongava o efeito.
Sob exposição solar, o tempo de supressão caía pela metade—era necessário comer a mesma dose duas vezes ao dia. De nada adiantava aumentar as porções.
Arroz glutinoso cozido? Delicioso, mas inútil.
Seria esse seu destino, sobreviver à base de arroz cru?
A resposta era, evidentemente, não.
Li Changqing não se angustiava com sua doença. Entre os muitos métodos que testara, experimentara também a meditação ensinada pelo avô.
E, ao entrar em estado meditativo pela primeira vez, deparou-se com uma surpresa: o verdadeiro causador de sua travessia entre mundos residia em sua mente…
Como descrever aquilo?
Sempre que Li Changqing voltava seu olhar interior ao cérebro, via uma cena impressionante: os três dados brancos que selaram seu destino pairavam, inertes e cinzentos, no centro da mente. Ao redor deles, orbitavam lentamente seis livros, como planetas em torno do sol.
Desses livros, cinco se mantinham cinzentos e inativos, tal qual os dados. Apenas um deles—profundamente violeta e intitulado “Os Talismanes Sagrados dos Três Santuários”—brilhava intensamente.
Li Changqing podia vê-lo claramente e abri-lo.
Sabia o motivo de só aquele estar ativado. Na primeira meditação, todos os seis estavam cinzentos, menos o dado central, que reluzia. Quando sua consciência tocou os dados, estes começaram a girar, como se impulsionados por sua mente.
Giraram e rodaram, até repousarem lentamente no número 222.
Imediatamente, o livro “Os Talismanes Sagrados dos Três Santuários”, segundo mais próximo dos dados, brilhou com força, enquanto os dados tornaram-se novamente cinzentos e inertes.
A despreocupação de Li Changqing quanto à sua possível “rigidez cadavérica” derivava do fato de a segunda página deste livro conter justamente um método para suprimir o qi cadavérico…
O livro, por ora, só permitia abrir as duas primeiras páginas. A primeira trazia o esquema de um talismã de invocação.
Sua descrição: Talisman amarelo de nível inicial do Senhor Estelar do Fogo, com efeito de aquecimento, queima e cauterização.
Modo de preparo: usar cinábrio como cor, vinho como tinta, papel de arroz como suporte, energia espiritual como guia; o executor deve unir mente e espírito e traçar o talismã com precisão em três respirações.
A segunda página, ainda mais crucial, continha o talismã do “Grande General Presente”.
Descrição: Talisman amarelo de nível inicial do Senhor Verdadeiro da Madeira, capaz de suprimir o qi cadavérico e refrear feitiços de zumbaria e magia.
Modo de preparo: usar semente de girassol como cor, suco de arroz como tinta, papel de bambu como suporte, energia espiritual como guia; o executor deve unir mente e espírito e desenhar o talismã com precisão em sete respirações.
Ao deparar-se com este talismã, Li Changqing sentiu-se muito aliviado. Se pudesse colar em si mesmo, a qualquer tempo, o talismã do Grande General, seria certamente mais eficaz que o arroz cru!
E, certamente, melhores recursos viriam depois!
Assim, desde que chegara a este mundo, aproveitava cada momento livre—especialmente antes de dormir—para meditar e estudar, segundo as instruções do livro, a arte de desenhar talismãs.
Após duas semanas de prática, o talismã de invocação, o mais simples, já podia ser desenhado com sucesso uma vez a cada cinco tentativas, a um custo médio de três moedas lang.
O talismã do Grande General, porém, de traços muito mais complexos, consumira-lhe mais de duzentas moedas sem que tivesse conseguido completá-lo sequer uma vez.
Contudo, à medida que praticava, Li Changqing percebeu acumular, pouco a pouco, uma tênue energia mágica. Agora, era capaz de emitir um fio de energia pelos dedos e acender instantaneamente um talismã de invocação—praticidade inigualável para, por exemplo, aquecer o leite!
…
Mergulhado em pensamentos, sentindo a ardência do sol e as reações do corpo, Li Changqing finalmente tirou o arroz cru e, com um gole d’água, engoliu um punhado.
O arroz desceu pela garganta como ferro incandescente, a ponto de lhe pulsarem as veias da testa.
Recobrando o fôlego, ergueu-se e puxou as pesadas cortinas recém-encomendadas. Com a diminuição da luz, o quarto voltou enfim à frescura…
***
Ao cair da tarde, Li Changqing, ainda de pijama, entrou preguiçosamente na sala que servia também de escritório do detetive. Tang Xiaoyu, vestida com um pijama felpudo de desenho animado, estava sentada no sofá, segurando um lenço, enxugando os olhos enquanto assistia televisão.
Curioso, Li Changqing sentou-se ao lado dela para assistir junto.
Na televisão, passava algum melodrama; ao som de uma música lacrimosa, o protagonista era alvejado no peito e, deitado no colo da heroína, passava mais de cinco minutos murmurando juras de amor.
“Isto conta como levantar dos mortos?” Li Changqing não conteve o comentário.
“Cale a boca!”
Tang Xiaoyu lançou-lhe um olhar fulminante, virando-se para continuar a enxugar, com o lenço seco, um canto do olho onde nem sequer havia vestígio de lágrima.
Pois bem…
Li Changqing, entre divertido e resignado, pegou os jornais sobre a mesa de centro e pôs-se a folheá-los.
“Notas da Federação”:
O primeiro-ministro Silva, do Império Ramela, visitará a Federação Zhuque no dia nove para negociar novos regulamentos de comércio fronteiriço…
O Senado aprovou, dia sete, a Lei da Liberdade Matrimonial com 63% dos votos, garantindo o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, de sexos opostos e de diferentes espécies…
“Gazeta Vespertina de Nanlin”:
Atriz vencedora do Prêmio Diamante passa a noite na mansão secreta de homem casado…
18 a 17: Equipe Lótus Vermelha vence nos acréscimos o time Dali King Kong na semifinal da Copa Intercontinental de Quidditch…
Li Changqing lia sem grande interesse, até que notou, em uma das edições, uma matéria circulada em vermelho por Tang Xiaoyu. Observou o título: “Casos Insólitos da Semana em Nanlin”.
Ali, enumeravam-se os eventos mais estranhos da semana na cidade:
1. Pesadelo na vida real! Taxista leva passageiro à Ponte do Arco-Íris à meia-noite; cliente salta no rio, motorista tenta impedir, sem sucesso…
2. Pesquisadora desaparecida durante corrida noturna, junto com o cachorro de estimação…
3. Generosidade ou segundas intenções? Numa só noite, dez moedas lang foram encontradas na fresta da porta de noventa apartamentos do mesmo prédio…
4. Cadáver encontrado no poço da antiga residência do Conde de Zhaonan; o próprio conde está sob investigação policial…
Assinar jornais era um costume profissional do antigo dono do corpo; destacar matérias relevantes com caneta vermelha era recomendação que Li Changqing dera na semana anterior—e que logo esquecera, mas Tang Xiaoyu seguira fielmente.
Quando terminou de ler, percebeu que o melodrama já acabara. Deixou o jornal, tomou um gole de chá e perguntou:
“Vieram clientes hoje?”
“Não. Mas alguém deixou um contato no quadro de avisos lá fora—uma senhora de sobrenome Fang. O telefone é 1736264*5*8. Você disse antes que quem deixa recado geralmente não tem pressa, então não quis te acordar…”
Ao terminar o relato, Tang Xiaoyu lembrou-se de algo e logo se queixou:
“Li Changqing, os incensos perderam o aroma, estão ruins.”
Enquanto mandava uma mensagem para a cliente, Li Changqing resmungou:
“Eu disse para comprarmos coisa boa. Você é que insistiu no barato, agora está aí, dinheiro jogado fora!”
Tang Xiaoyu, contrariada, respondeu:
“Eu sei, mas é uma renda extra inesperada. Mesmo que tenhamos lucrado bem nessas semanas, temos de economizar!”
Li Changqing não soube o que dizer…
Três dias antes, recordara-se de que fantasmas, segundo o avô, gostavam de absorver o aroma de incenso deixado nos túmulos. Decidiu então trazer três varetas para experimentar—e Tang Xiaoyu realmente gostou. Desde então, o incenso passou a constar das despesas ordinárias do escritório.
“Bip—”
Naquele momento, Li Changqing recebeu uma resposta à mensagem. Após ler, levantou-se sorrindo:
“Vamos, vamos comprar incenso. E às oito, encontramos a senhora Fang no Anran Café—já garantimos o jantar.”