Capítulo Um: Trazendo Duas Belas Mulheres para Casa
Quando Xiao Yi abriu os olhos mais uma vez, não se deparou com o campo de batalha assolado pelas chamas da guerra, nem encontrou ao seu lado aqueles irmãos de armas que com ele haviam partilhado a vida e a morte; ao invés disso, viu-se em um quarto estreito e desconhecido.
— O que está acontecendo? Como vim parar aqui? Não fui lançado pelos ares por uma mina? Será que não morri?
Enquanto tentava, perplexo, rememorar os acontecimentos, uma torrente de memórias alheias irrompeu em sua mente, provocando-lhe uma dor aguda e insuportável.
— Hm! Ah… Que dor!
O gemido escapou-lhe involuntariamente, enquanto apertava a cabeça com ambas as mãos, chegando a bater a testa com força contra o colchão. Seu rosto contorcia-se de maneira assustadora, e o suor escorria incessantemente.
Após cerca de meia hora, a dor finalmente arrefeceu, embora sua mente permanecesse turva e confusa.
Foi então que Xiao Yi entendeu por que estava ali. A fusão inicial das memórias revelou-lhe que já não era o exímio soldado de elite de outrora. Havia, tal qual nos romances, atravessado para outro mundo! Um espaço quase idêntico à Terra, onde os países e a cultura se assemelhavam ao seu antigo lar.
O dono original do corpo que Xiao Yi agora ocupava também se chamava Xiao Yi, mas ao contrário de sua anterior identidade, não era nenhum combatente de elite, e sim um “otaku fracassado”. Até o ensino médio, a vida seguira os desígnios dos pais, como tantos outros jovens. Porém, ao ingressar na universidade, rebelou-se e escolheu o curso que realmente desejava, desconsiderando as recomendações familiares.
A realidade, contudo, tem o hábito cruel de esmagar sonhos. Já se passavam mais de dois anos desde a graduação, e nunca lhe fora concedida oportunidade de aplicar o que aprendera. Apenas sobrevivia, escrevendo romances online e realizando trabalhos temporários para garantir o sustento.
Na noite anterior, celebrando o término de um livro e o recebimento dos honorários, resolveu recompensar-se por meses de esforço: comprou uma caixa de cerveja e, sozinho em seu pequeno apartamento de menos de cinquenta metros quadrados, entre a sala e o banheiro, entregou-se ao prazer de assistir filmes impróprios e beber, desfrutando do momento de satisfação e relaxamento.
Infelizmente, esquecera-se de sua mísera tolerância ao álcool, e, embriagado, estimulou-se com os filmes até que o coração não suportou… Assim, Xiao Yi tornou-se “Xiao Yi”.
À medida que as memórias se acomodavam, Xiao Yi começou a observar atentamente seu novo lar. Tudo naquele quarto lhe era ao mesmo tempo familiar e estranho, provocando uma sensação de irrealidade, que lhe trouxe inquietação e desamparo.
Sacudindo a cabeça, ainda pesada, desceu da cama, adaptando-se ao novo corpo, e não pôde evitar uma crítica silenciosa: comparado ao anterior, este corpo era tão fraco que a palavra sequer lhe servia!
Com um leve suspiro, Xiao Yi aceitou resignadamente o novo destino. Por mais que parecesse um sonho, ao menos não morrera na explosão da mina.
Olhando para o céu que escurecia além da janela, sentiu o estômago protestar. Desde a noite anterior, só ingerira álcool, e já estava faminto. Isso contribuiu para que reconhecesse a realidade: não era um sonho. Apalpou os bolsos—felizmente, ainda havia algum dinheiro. Não importava o resto, o primeiro passo era saciar a fome.
Morava na periferia urbana de Yanjing, a capital da Hua Xia, além do quinto anel viário. Nas proximidades, além de um luxuoso bairro de mansões, predominavam edifícios irregulares e antigos pátios residenciais. O motivo das mansões ali era a presença de um largo rio e o lago artificial construído junto às residências.
Escolheu um pequeno restaurante aparentemente limpo. O proprietário o reconheceu e cumprimentou-o com cordialidade, mas Xiao Yi não sabia quem era—suas memórias ainda não haviam se fundido por completo, muitas lacunas permaneciam. Respondeu com um sorriso forçado e pediu alguns pratos caseiros, comendo distraído, perdido em pensamentos.
Após o jantar, caminhou sozinho pelas ruas, observando o ambiente ruidoso ao redor. A sensação de irrealidade diminuía a cada passo. Como cidadão da capital em sua vida anterior, reconhecia o dialeto regional, e tudo ali parecia idêntico ao mundo de onde viera.
Assim, avançando pela rua, sem perceber, chegou próximo ao lago artificial do bairro das mansões. Sob o luar, a superfície do lago reluzia, e sua mente se encheu de lembranças do passado, incluindo a autorização concedida para uma visita à família antes da última missão. Lágrimas deslizaram de seus olhos.
— Pai, mãe… vosso filho falhou!
Na vida anterior, os anos no exército foram dedicados a missões e treinamentos, sempre pronto para agir, e há anos não voltava para casa, tampouco via os pais.
Antes da última missão, Xiao Yi pedira licença para visitar a família, e fora autorizado. Contudo, um novo dever surgiu repentinamente. Ele pensou em voltar após a tarefa, chegou a se gabar aos colegas de que logo estaria em casa. Quem poderia prever que, ao proteger um líder terrorista que se entregava, pisaria em uma mina e seria lançado aos céus antes que alguém pudesse reagir!
...
Enquanto Xiao Yi se perdia no emaranhado de memórias do passado e do presente, ouviu ao longe um acalorado debate, aparentemente entre uma mulher e um homem.
Não queria se envolver—sua mente já estava suficientemente perturbada, não havia espaço para curiosidades alheias. Contudo, a discussão se intensificava, e a voz feminina bradava “solte-me”, “não preciso de você” e “você matou minha irmã”, entre outras frases.
Apesar de já possuir parte das memórias desta vida, Xiao Yi agiu instintivamente como um soldado. Ouvir uma mulher clamar por socorro, à noite, em um local tão isolado, bastou para que, hesitante, seguisse na direção do tumulto.
Ao se aproximar, viu apenas uma mulher empurrando um carrinho de criança sob a luz amarelada do poste, enquanto um carro preto arrancava ao longe.
Diante da cena, supôs tratar-se de uma discussão familiar, sem perigo aparente, e decidiu partir. Mas, ao virar-se, percebeu que a mulher tropeçava, apoiando-se no poste, antes de cair lentamente ao chão.
Xiao Yi apressou-se, levantando-a com cuidado e permitindo que se apoiasse em seu ombro. Um aroma delicado chegou-lhe ao nariz, e o toque suave e quente provocou um leve abalo em seu coração—em duas vidas, jamais estivera tão próximo de uma mulher.
A moça, embora pálida como papel, era de uma beleza incomparável. Xiao Yi sentiu que seu rosto lhe era familiar, mas não conseguia recordar de onde.
Sacudiu a cabeça, afastando pensamentos dispersos, e, baseado na experiência anterior, examinou-a discretamente, aliviando-se ao constatar que era apenas fraqueza física ou cansaço extremo, resultando em desmaio. Um repouso bastaria.
— Moça… acorde… moça… — chamou enquanto a sacudia levemente, mas ela não dava sinais de despertar.
Voltou-se ao carrinho, onde, à luz do poste, viu uma adorável menina de talvez dois ou três anos.
Xiao Yi olhou para a mulher em seus braços, depois para a criança no carrinho, franzindo o cenho e iniciando uma busca.
Não se engane: apenas procurava por um celular ou qualquer objeto que indicasse a identidade ou endereço da família da mulher.
Em vão. Nada trazia consigo, nem mesmo telefone.
Sem saber como proceder, lembrou que seu próprio celular estava descarregado e desligado desde o jantar. Ali não havia lojas ou residências próximas.
Não podia chamar a polícia ou ambulância; levar a mulher ao hospital seria impossível—o hospital ou hotel mais perto ficava a mais de cinco quilômetros. Para o antigo Xiao Yi, esse percurso não era nada; mesmo agora conseguiria, mas com mãe e filha, seria complicado.
Com um suspiro, fitou a mulher e a menina, e decidiu: “Bem, farei o bem até o fim.” Após ponderar, resolveu levá-las para sua casa, que ficava a menos de três quilômetros dali—com algum esforço, chegaria.
Sem hesitação, ergueu a mulher, acomodando-a nas costas… O contato macio e delicado provocou-lhe uma sensação estranha, logo reprimida. Empurrou o carrinho, caminhando devagar rumo ao apartamento.
Após mais de uma hora, exausto, finalmente chegou ao seu modesto lar.
— Ufa… Maldição, este corpo é mesmo inútil; carregar alguém com menos de cinquenta quilos me deixou nesse estado lamentável.
Colocou a mulher no sofá e sentou-se ao lado, respirando com dificuldade.
Após breve descanso, foi ao quarto trocar a roupa de cama. O antigo Xiao Yi, típico otaku, raramente lavava os lençóis, o cheiro era desagradável—não podia permitir que uma jovem repousasse naquele ambiente.
Pegou lençóis limpos e rapidamente os trocou. Apesar da preguiça, ao menos havia peças de reposição; caso contrário, a bela visitante teria de suportar o aroma peculiar da vida de um fracassado.
Mesmo assim, o odor persistia, mas melhorara consideravelmente. Voltou à sala e, reunindo o pouco de energia restante, carregou a mulher ao quarto, suspirando aliviado.
Agora, pôde contemplar a moça que “resgatara”: deitada, seu corpo revelava curvas exuberantes, seios firmes, cintura fina, pernas longas e elegantes. O rosto pálido, com as sobrancelhas delicadamente franzidas, transmitia certa tristeza. Longos cabelos espalhados sobre o travesseiro, cílios extensos, nariz pequeno e levemente arrebitado… Uma beleza de tirar o fôlego, a mais bela que Xiao Yi já vira em duas vidas.
Após admirá-la por um tempo, retirou-lhe os sapatos e a cobriu com o edredom, depois pegou a pequena do carrinho e colocou-a ao lado da mãe. A menina era também um prodígio de beleza, com feições encantadoras; ao ser posta na cama, fez um biquinho de desaprovação, irresistivelmente adorável.
Com ambas acomodadas, o cansaço tomou conta de Xiao Yi, que apressou-se a lavar-se e deitou-se no sofá da sala, entregando-se ao sono.
Enquanto dormia, as partes das duas memórias ainda não fundidas começaram a se unir rapidamente, fazendo com que Xiao Yi, mesmo adormecido, franzisse o cenho, enquanto uma camada de suor frio brotava em sua testa.