Capítulo Dois: O Sonho Não Tem Fim
— Um, dois, três, quatro; dois, dois, três, quatro; três, dois, três, quatro; mais uma vez! Hei-xiu! Hei-xiu! Pá! Pá! Pá! —
Sun Yao exercitava-se sozinho em seu quarto, realizando movimentos que lhe pareciam profundamente constrangedores, sobretudo aqueles em que, por não poder mover as pernas, era obrigado a ativar os músculos dos quadris para despertar o instinto dos membros inferiores.
Apesar da dor, Sun Yao não se queixava, determinado a recuperar-se o quanto antes.
— Para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita! Hei-xiu! Hei-xiu! Pá-pá-pá-pá! —
— Diga lá, Pequeno Deus! É mesmo necessário gritar esses slogans? — Sun Yao detestava aqueles gritos de encorajamento, que lhe pareciam próprios de algum ritual humilhante.
— Sim, é preciso gritar assim, sem errar! Se não, a respiração não se coordena com o corpo e, no fim, você falha — explicou Pequeno Deus.
— Está bem, está bem! Eu aceito! — Nos últimos dias, o treino intenso realmente acelerava a recuperação de Sun Yao, e, mesmo sendo uma afronta à sua dignidade, ele se submetia.
Só que, de portas fechadas, quando os pais estavam em casa e ouviam aqueles sons vindos do quarto, achavam tudo muito estranho.
— Pequeno Deus, você não é tão divino? Mude de forma, por favor! Tenho medo de que, depois de falar tanto tempo com uma pedra, quando estiver curado, acabe me tornando um lunático! — sugeriu Sun Yao, dirigindo-se à pedra que era Pequeno Deus.
— De acordo! — respondeu o Pequeno Deus.
— Shuá! —
A pedra transformou-se numa madeira!
Sun Yao sentiu um arrepio, — Pode virar outra coisa? — perguntou.
— O que você quer que eu vire? — indagou Pequeno Deus.
— Que tal uma bela mulher? — sorriu Sun Yao, malicioso. — Daquelas sem roupa, como Tang Wei, Liu Shishi, Yifei... todas ótimas... ou até aquelas deusas do Ocidente!
— Desculpe! Não tenho esse recurso! Só posso virar uma pequena escultura. Ei! Transformação! —
Num piscar, Pequeno Deus virou uma pequena estátua.
— Bonito ou não? David! —
— Um David minúsculo, ora! Pode parar com isso? — Sun Yao reclamou, — Não quero passar os dias conversando com um mini-David nu, vou enlouquecer ainda mais rápido! —
— Então virei uma escultura de Batistuta! — disse Pequeno Deus. — Se for uma estátua de um craque, conversar com seus sonhos deve ser mais confortável. —
— Está bem! Mas lembre-se de vestir roupas! Não tenho esse tipo de sentimento por Batistuta — Sun Yao cedera, resignado.
Daquele dia em diante, nos momentos de solidão, era a estátua do guerreiro Batistuta que lhe fazia companhia.
Dois meses depois, Sun Yao finalmente pôde levantar-se, livrou-se da cadeira de rodas — não que tivesse mudado para uma maca, apenas a colocou de pé!
Agora, apoiava-se numa muleta!
— Enfim posso andar! Mesmo com muleta, já é excelente! — exclamava Sun Yao, radiante.
A recuperação fora tão rápida que até os médicos se mostraram incrédulos, declarando tratar-se de um milagre da medicina. O próprio médico responsável mandou comprar uma placa para si, gravada com “O Hua Tuo dos Tempos Modernos”, e pediu aos pais de Sun Yao que a entregassem.
Sun Yao não dava importância a essas frivolidades; após quase dois meses recluso em casa, não aguentava mais esperar para respirar o ar fresco.
Assim, munido da muleta e acompanhado do Pequeno Deus Batistuta, saiu à rua!
— O mundo lá fora é mesmo maravilhoso, que dia ensolarado! — cantarolava Sun Yao, perambulando, de alma leve.
— Ora, quem é esse? Não é o Rei do Futebol, Sun Yao, com paralisia nas pernas? Já consegue andar? — Uma voz estridente e sarcástica ecoou.
Ao ouvir, Sun Yao sabia de quem se tratava — nem precisava olhar. Era o mais descarado da turma, autodenominado “bonito, rico e alto”, Gao Fei.
— Ora, que som é esse? Parece que alguém está criando burros por aqui! Logo cedo, e já soa uma briga de burros! — Sun Yao nem se dignou a olhar de frente, iniciando seu escárnio.
Na turma, ele tinha afinidade com Biaozi, o rapaz de expressão impávida, mas com Gao Fei, “o bonitão”, nunca se deu bem.
Certa vez, brigaram feio por causa de uma garota.
No fim, a menina acabou com outro “bonitão” de outra turma, pois considerava Sun Yao pobre demais, e Gao Fei, um fracasso!
— Quer arranjar confusão, Sun Yao? Com um inválido como você, nem tenho coragem de bater! — Gao Fei vociferou.
— Ora, ora! É o bonitão! Quanto tempo, hein! — Só então Sun Yao virou-se para encarar o semblante hostil de Gao Fei.
— Hmph! — Gao Fei resmungou, frio.
— Dois meses sem te ver, já cresceu mais um pouco, hein? Já tem uns 1,63m, não é? — Sun Yao continuou na provocação; nunca fora de temer conflitos, e apesar da situação financeira precária, graças ao carinho da mãe, era muito confiante e jamais se curvava aos “bonitões”. Afinal, ainda não conhecia a crueldade do mundo, era apenas um estudante do ensino médio.
Embora Sun Yao não fosse alto — tinha apenas 1,76m —, esse era um tamanho suficiente para ridicularizar alguém de 1,63, e acreditava que ainda cresceria mais uns dois anos, quem sabe alcançaria até dois metros!
— Você é bom de boca, mas não se esqueça, está inválido. Se eu resolver partir pra cima, vai chorar! — Gao Fei ameaçou.
— Irmão, me desculpe! — Sun Yao respondeu imediatamente.
— Assim é melhor! Se me chamar de pai, te perdôo! — Gao Fei insistiu.
— Acho que não tem 1,63 não, me enganei ao olhar! — Sun Yao retomou a provocação.
— Você... — Gao Fei, incapaz de suportar a afronta, preparou-se para revidar.
— Ei! Já chega, deixem disso! — Biaozi apareceu naquele momento.
— Uau, chegou na hora certa! Senão, eu teria acabado com ele! — Sun Yao brincou.
Biaozi era o típico filho de família rica, em situação bem melhor que Gao Fei. Com sua chegada, Gao Fei preferiu não prolongar a conversa.
— Estamos todos aqui! — Alguns colegas surgiram atrás de Biaozi, incluindo o rapaz magrelo de óculos e expressão impassível, além de algumas “belas flores”.
— Ouvi dizer que você já consegue andar. Então viemos todos ver, até Gao Fei. Afinal, somos colegas, e as desavenças do passado já são águas passadas — disse Biaozi.
— Yaozi, quando volta às aulas conosco? O vestibular está chegando! — Biaozi insistiu.
— Ah, primeiro agradeço a visita do Gao Fei, sei que me admira! Quanto ao vestibular, não me interessa muito. Basta pegar o diploma de ensino médio — Sun Yao respondeu, displicente.
— O que quer dizer com isso? — Biaozi não compreendeu.
— Não voltarei à escola. Tenho meu próprio sonho! — Sun Yao parecia tomar uma decisão irrevogável.
Dias atrás, Pequeno Deus lhe dissera: para ser um astro do futebol, é preciso agir sem hesitar, abandonar o que deve ser abandonado, agarrar o que deve ser agarrado!
Se acreditasse, seguiria seus planos; se não, trilharia o caminho da mediocridade.
Sun Yao decidiu acreditar!
Depois de recuperar o corpo, passaria a treinar conforme as instruções de Pequeno Deus, retomando o sonho de tornar-se um jogador profissional.
— Sonhos nunca têm fim! — Sun Yao proclamou diante de Biaozi, num tom clássico.
— Vai ser ginecologista? — perguntou o magrelo.
— Não, não! — Sun Yao acenou, — Quero ser o melhor jogador de futebol do mundo! Com esforço, nunca é tarde!
— Uau, Yaozi! Hoje é o dia mais determinado que já te vi! — Biaozi admirou.
— Que encanto! — exclamaram as “flores” em êxtase.
— Está decidido! Assim que estiver pronto, começo a treinar, vou atrás do meu sonho por todo lugar! — Sun Yao afirmou, resoluto.
— Estamos contigo! Sempre seremos amigos! — Biaozi estendeu a mão.
— Sempre, sempre amigos! — Sun Yao sorriu.
Todos estenderam as mãos e repetiram juntos, em voz baixa.
Depois de comer, beber e se divertir com os colegas, despediram-se entre lágrimas, risos, afeto e saudade. Uma nova vida estava prestes a começar.
Dois meses após a recuperação, Sun Yao comunicou aos pais sua decisão. Não revelou o desejo de tornar-se jogador profissional, apenas disse que queria sair para se aprimorar, conhecer o mundo.
— Quero... —
— Você decidiu mesmo? — O pai, surpreso.
— Sim, decidi! — Sun Yao afirmou, convicto.
— De jeito nenhum! O mundo lá fora é duro e perigoso, você tão jovem, com gente má, traficantes de órgãos... É arriscado! Sua doença mal passou, se voltar, o que fará? Não concordo! — A mãe se opôs energicamente.
— Confie em mim! Sei cuidar de mim mesmo. Não sou bobo! Não acredita no seu filho? — Sun Yao tentou convencê-la.
— Mas... mas... — A mãe ainda hesitava.
— Homem de verdade busca horizontes! Concordo, filho! Não dá pra esperar que você siga o caminho dos estudos. Só cuide de si, não faça nada errado! — O pai apoiou.
Após muita conversa, os familiares de Sun Yao chegaram a um consenso e finalmente aprovaram sua decisão.