Capítulo Dois Nangong Jing
Capítulo Dois
Quanto ao desaparecimento da estela, Nangong Jing, segundo conjecturava Ye Li, provavelmente já se convertera naquele montículo de pó que jazia ao solo; no entanto, por mais que refletisse, não lograva compreender por que motivo a estela teria se desfeito em pó.
De volta à residência do senhor da cidade, Ye Li ocupou-se de alguns assuntos administrativos, após o que se dirigiu à biblioteca de sutras. A biblioteca do senhor da cidade era vasta, estruturada como uma torre de cinco andares. Tudo aquilo era herança de seu pai; tudo quanto Ye Li possuía era legado de seu genitor, inclusive o próprio título de senhor da cidade.
— Jovem mestre, hoje justamente completa dezesseis anos. Não deveríamos ir à casa da família Nangong? — disse o mordomo Xu ao adentrar na biblioteca, encontrando Ye Li absorto na leitura.
— Dezesseis anos já? Dezesseis anos se passaram… — Ye Li fechou o livro com um suspiro. — A família Nangong, hein? Heh. Vamos, pois. Afinal, tudo isto remete a acontecimentos de mais de uma década.
— Irei providenciar tudo — respondeu o mordomo Xu, retirando-se para os preparativos.
Ye Li também deixou a biblioteca para tomar banho e trocar de roupas.
Quando estava devidamente trajado, o mordomo Xu já o aguardava.
— Vamos — disse Ye Li, acenando com a mão. Juntos, subiram na carruagem e partiram da residência, deixando para trás a cidade de Feng.
Já se aproximava a tarde quando Ye Li e o mordomo Xu chegaram à capital imperial, onde se encontrava a família Nangong. Esta era uma das quatro grandes famílias, tendo como patriarca um duque do Império Tianqiong. Se fosse para classificá-las, a família Nangong só perdia para os Ling, que, contudo, pertenciam à linhagem imperial. A família Ye ocupava o terceiro lugar, e a quarta era a família Lin.
— A capital imperial… Há muito não a visito — murmurou Ye Li, contemplando a grandiosa cidade à sua frente, sentindo o peito se alargar. — Vamos, à casa Nangong.
No sudoeste da capital, erguia-se uma vasta propriedade, pontilhada de incontáveis edificações — tal era a morada da família Nangong.
Naquele momento, Ye Li e o mordomo Xu aguardavam já há quase uma hora, sem que ninguém viesse recebê-los.
Ao mesmo tempo, num pátio tranquilo da mansão Nangong, soava uma melodia suave de guqin. No pátio, uma jovem de vestes azuis dedilhava as cordas do instrumento. Três mil fios negros de cabelo flutuavam ao vento; seu rosto, inexpressivo, ostentava a distante dignidade de uma deusa intocável.
Por fim, a música cessou suavemente.
— Ele ainda espera lá fora? — perguntou a jovem em voz baixa.
— Sim, senhorita — respondeu uma criada postada ao lado.
— Hmph! Não pense que paciência é suficiente para conquistar alguém. Vamos, deixe-o entrar; quero ver com meus próprios olhos — disse a jovem, erguendo-se e deixando o pátio.
— Senhor da cidade Ye, nosso patriarca o convida a entrar — veio enfim um criado, após longa espera. Ye Li assentiu com serenidade, seguindo o criado para o interior da mansão, com o mordomo Xu carregando numerosos presentes logo atrás. O mordomo conhecia bem Ye Li, sobretudo sua paciência forjada desde a infância, entre os escárnios dos outros.
Logo, o criado conduziu ambos ao grande salão, onde se encontrava um homem de pouco mais de quarenta anos, cuja aparência evocava a de um erudito, inspirando simpatia. Contudo, Ye Li sentiu, vindo daquele homem, uma opressiva aura de poder invisível e aterradora. Ao seu lado estava sentada uma jovem, evidentemente a mesma que antes dedilhava o guqin, aparentando quinze ou dezesseis anos, mas Ye Li sabia que ela estava longe de ser simples.
Ye Li fitou-a por um instante, depois voltou-se para o homem e saudou-o respeitosamente:
— Saúdo o tio Nangong.
Naturalmente, Ye Li se apresentava ali em caráter pessoal, sem recorrer a títulos oficiais.
— Hehe, Ye Li, sente-se — disse o homem, sorrindo.
— Trouxe estes presentes para lhe prestar minhas homenagens — indicou Ye Li, pedindo ao mordomo que os ofertasse antes de se sentar.
— Hehe, não precisava, meu jovem. Não era necessário trazer presentes — retrucou o homem, sorridente.
— Não é nada. Na verdade, hoje vim principalmente para…
Antes que Ye Li concluísse, a jovem ao lado de Nangong Qiong interrompeu friamente:
— Assuntos de noivado não me interessam. Não quero me casar com um inútil.
Ao ouvir tais palavras, o semblante de Ye Li toldou-se de sombras, mas logo retornou à neutralidade. Vinha preparado para tal e já ouvira falar de Nangong Jing.
— Jing’er! Não diga tolices! — ralhou Nangong Qiong, lançando-lhe um olhar severo. A jovem, porém, cruzou os braços, indignada.
— Hehe, meu estimado Ye Li, não leve a mal o temperamento de Jing’er — disse Nangong Qiong, sorrindo. — Mas você sabe, acabou de completar dezesseis anos, Jing’er nem isso tem ainda. São ambos muito jovens; creio que melhor seria deixarmos isso para mais tarde. Quando crescerem, poderemos conversar novamente.
Ye Li sorriu, acenando displicente, ocultando seus reais pensamentos.
— Se quiser me desposar, precisará provar que é mais forte do que eu. Quero um marido que me supere. Acha que pode me vencer? Mesmo seu pai, quando tinha dezesseis anos, não era páreo para mim — bradou subitamente Nangong Jing, que, instigada pelas palavras do pai, parecia rebelar-se contra a perspectiva de um casamento futuro.
Desta vez, Ye Li não conseguiu conter-se. Seu rosto tornou-se sombrio num instante.
— Pode insultar-me, mas não admito que insulte meu pai! — disse ele, com voz grave.
— Só disse a verdade — retrucou Nangong Jing, ainda mais provocadora.
— Jing’er! — repreendeu Nangong Qiong.
— Pai, falo apenas os fatos! Quando Ye Wuyou tinha dezesseis anos, estava apenas no segundo estágio do Caminho Místico. Eu já alcancei o terceiro! — protestou a jovem.
— Muito bem! Muito bem! Os Nangong são realmente extraordinários — Ye Li riu, tomado de ira.
— Hmph! Ainda que eu não seja nada, você, inútil, jamais chegará ao meu nível — replicou Nangong Jing, desdenhosa.
— Haha! Mordomo Xu, leve de volta nossos presentes — riu Ye Li, erguendo-se para sair. — Nangong Jing, dentro de dois anos, encontraremo-nos novamente na Sagrada Guerra do Império. Farei você se arrepender de cada palavra que hoje proferiu!
— Só você, inútil? — Nangong Jing torceu os lábios, desdenhosa.
— Jovem mestre, não se deixe levar pela impulsividade! — aconselhou o mordomo Xu, assim que deixaram a residência.
— Não importa. Quem é tão arrogante não me interessa. Vamos procurar um lugar para nos hospedar, mordomo Xu — disse Ye Li, acenando.
— Sim, senhor.
Ye Li já ouvira falar da arrogância de Nangong Jing, que declarara abertamente só aceitar se casar com um homem mais forte do que ela. Tal afirmação era dirigida a Ye Li. O matrimônio entre ambos fora arranjado por seus pais, Ye Wuyou e Nangong Qiong, antes mesmo de nascerem. Agora, Ye Wuyou já não estava mais entre os vivos.
Se Nangong Jing fosse de temperamento afável e culta, Ye Li pensara em aceitar o noivado. Mas, sendo ela tão altiva quanto os rumores diziam, não fazia questão. Agora, via que os rumores eram verdadeiros.