Capítulo Quatro — Pico Voador
O Pico Feilai é o domínio divino do Venerável Zixia.
Todos os verdadeiros devotos que depositam sua fé no Venerável Zixia, ao morrerem, têm suas almas arrebatadas por Ele para este mundo, tornando-se assim os heroicos espíritos de seu reino.
Sim, trata-se de um mundo onde a fé é o caminho da ascensão.
Gu Xinyan veio da Terra, onde o qi espiritual é rarefeito, a fé, confusa, e a maioria é composta de crentes falsos; alguém como Gu Xinyan, naturalmente, não era um verdadeiro devoto do Venerável Zixia.
Sua presença ali se deve à grandiosa magia do Venerável Zixia.
Há muito tempo, uma estela voou do Reino do Caos, vindo parar nas mãos do jovem Zixia. Esta estela encerrava segredos inigualáveis; foi por meio dela que Zixia comprovou o Dao, e em poucos milênios conquistou o título de Venerável, obtendo assento no Céu Celestial. Após isso, tomou a estela como alicerce e erigiu seu inigualável reino divino, trilhando o caminho da realização suprema.
Zihui era o filho do Venerável Zixia.
Foi concebido quando Zixia ainda não ascendera ao Nono Céu, lutando por sobrevivência no mundo inferior. Ao nascer, carecia de uma das três almas, estando à beira da morte.
Naquela época, Zixia não se rendeu.
Ela rompeu o portão da seita Huangquan, roubou o tesouro ancestral — o Caixão Prende-Almas, relíquia de milhares de gerações — e lá depositou Zihui, mergulhando-o num sono eterno.
Somente após ascender ao Nono Céu e alcançar o ápice em apenas mil anos, Zixia encontrou um meio de salvar o filho.
Gu Xinyan era parte de uma das três almas dispersas de Zihui, não se sabe em que momento foi parar na Terra. Mais tarde, o Venerável Zixia a encontrou e, consumindo imenso poder, projetou a sombra da estela na Terra, permitindo que Gu Xinyan a tomasse como sua ferramenta primordial. Depois de estabelecer contato, Zixia usou sua suprema magia para capturar o espírito de Gu Xinyan e depositá-lo no palácio ancestral de Zihui.
Assim, Zihui pôde enfim sobreviver.
Embora portasse as memórias de Gu Xinyan.
Pior ainda, Zihui não conseguia cultivar-se, tampouco viver como um mero mortal.
Era o chamado “Filho da Maldição Celestial”.
Só podia sobreviver nos domínios do Pico Feilai, protegido pelo poder da estela.
Se deixasse o reino divino do Venerável Zixia, seria descoberto pelas leis do Dao Celestial do Nono Céu; em tal situação, nem mesmo o poder supremo de Zixia poderia protegê-lo — seria aniquilado pelo Dao Celestial, reduzido a pó.
Apenas no Pico Feilai lhe era permitido viver.
Condenado a eternamente possuir a aparência de sete ou oito anos, jamais crescer ou envelhecer; enquanto o Pico Feilai subsistisse, ele seria imortal.
Todavia, não era isso que desejava.
Afinal, na essência de sua alma, a presença de Gu Xinyan não podia ser apagada, e as memórias da Terra persistiam.
Tendo sido um entusiasta do cultivo imortal, ao adentrar um autêntico mundo xianxia, sua excitação era indescritível. Contudo, ao descobrir que não poderia cultivar-se, a decepção foi arrasadora. Era como ter uma bela mulher nua à sua frente, apenas para perceber-se castrado — que diferença haveria?
Sentia-se um prisioneiro, fadado à monotonia dos dias sem sentido.
Imaginava que tal existência jamais teria fim.
Contudo, o destino é volúvel.
Naquele mundo, quem dominava os miríades de céus era o Nono Céu, cada camada regida por um Soberano Celestial, senhor absoluto daquele domínio.
Ainda assim, mesmo um Soberano, se não transpusesse o Além e consolidasse o Fruto do Dao, seria afligido pelo infortúnio das Cinco Decadências Celestiais.
O senhor do Quinto Céu, o Soberano Yuding, não logrou superar a Quarta Decadência e pereceu em seu próprio reino, o Palácio Yuding. Assim, o Quinto Céu tornou-se terra sem dono.
À época, três tinham reais chances de ascender ao trono de Soberano:
O Venerável Lobo Azul, o Venerável Mar de Sangue e o Venerável Zixia do Pico Feilai.
Os dois primeiros eram de idade muito mais avançada que Zixia, porém, não era uma disputa de longevidade, mas de poder e influência.
No braço, ambos ainda estavam na primeira decadência, enquanto Zixia já havia superado a segunda. Mesmo juntos, dificilmente a venceriam.
No quesito influência, Zixia era ligeiramente inferior; aqueles dois possuíam raízes profundas.
Os detalhes da batalha pela sucessão escapavam ao conhecimento de Zihui — afinal, ele era um inválido.
Felizmente, pelo semblante de Zixia, conseguia inferir o desenrolar dos fatos; apenas diante de Zihui, Zixia ainda preservava resquícios de emoções humanas.
A disputa era desequilibrada, com Zixia dominando amplamente os adversários.
Neste ponto, conforme o costume, os Soberanos das camadas superiores interviriam; os dois rivais se retirariam, e Zixia ascenderia, tornando-se Soberana do Céu Zixia.
Todavia, o rumo da guerra alterou-se subitamente.
O Soberano Qisha do Sétimo Céu atacou em silêncio, abrindo uma vasta brecha no reino de Zixia. Guiando pessoalmente os dois rivais, investiu contra Zixia.
Assim nasceu o pesadelo de Gu Xiaozhao.
Gu Xinyan, Zihui, Gu Xiaozhao — esta era sua terceira reencarnação.
Sentado diante da estela, abraçando os joelhos, Gu Xiaozhao chorava copiosamente.
Lembrava-se de que, na batalha final, o Venerável Zixia sacrificou-se, fazendo explodir seu próprio espírito primordial e enviando o remanescente Pico Feilai ao vazio infinito. Assim pôde sobreviver. Quanto à razão de ter renascido no Mundo Tianyun como Gu Xiaozhao, talvez fosse influência da estela mágica.
O Registro Iluminado dos Mil Fenômenos Infinitos fora concedido por essa mesma estela.
O chamado Capítulo da Clareza de Coração era apenas a chave para adentrar aquele mundo.
Para penetrar tal espaço, contudo, era necessário dispor de certa energia; com sua frágil cultivação, forçar a entrada não só faria regredir seu poder, como também poderia danificar sua essência vital.
Por isso, era preciso recorrer a auxiliares como a Decocção Vermelha do Tigre para Fortalecimento Ósseo.
Toda a energia produzida por tal decocção era consumida ali.
Enxugando suavemente as lágrimas do rosto, uma sequência de escrituras surgiu na mente de Gu Xiaozhao — era o Capítulo da Visão da Natureza, a segunda parte do Registro Iluminado dos Mil Fenômenos Infinitos.
Diferentemente do Capítulo da Clareza de Coração, que servia apenas como chave de acesso, o Capítulo da Visão da Natureza já abarcava métodos de enfrentamento.
Este capítulo continha diversas técnicas: era uma arte de controlar a consciência, tornando-a substancial para agir no exterior, influenciando assim o funcionamento do mundo real.
Tal arte possui múltiplas aplicações.
Primeiro, pode ser usada para refinar pílulas e criar talismãs, sendo de grande valia aos mestres talismânicos.
Segundo, também serve em combate.
Ao executá-la, com a técnica de captar o fluxo de qi, a consciência forma ao redor do corpo um campo sensível ao qi marcial.
Permite discernir a rota do fluxo de qi do adversário e identificar a trajetória de seus ataques antes mesmo que sejam desferidos.
O dito “Conhece-te a ti mesmo e ao inimigo, e vencerás todas as batalhas” manifesta-se assim!
E isto era apenas o efeito mais básico desta arte secreta; alcançando o domínio do Mar que Abraça Cem Rios, uma consciência poderosa poderia criar uma área de milhares de léguas de raio.
Poderia soar exagerado?
Na verdade, Gu Xiaozhao não duvidava.
Ainda retinha, em suas memórias, as imagens das batalhas daqueles grandes seres; mesmo tendo visto só a ponta do iceberg, aquilo transcende as palavras.
Afastando-se da estela, desceu a encosta, os pés avançando lentamente sobre o solo negro.
Aquela terra não era comum.
O Pico Feilai flutuava no vazio sem fim, entre os interstícios dos planos; frequentemente, coisas estranhas vinham flutuando. Certa feita, uma Tumba do Retorno passou diante do Pico Feilai.
O chamado Retorno nada mais era que o túmulo de um ser celestial.
Assim como o Soberano Yuding do Quinto Céu: ao perecer, seu reino perdia a divindade; sem um grande poder para selá-lo, dissipava-se no vazio, tornando-se um Retorno.
O Venerável Zixia obtivera muitos tesouros daquele Retorno, dentre eles, algumas onças de Terra Respirante.
Com suprema magia, ela fundiu a Terra Respirante ao solo do Pico Feilai, formando aquele solo negro. Mais precisamente, ali era um jardim de plantas medicinais.
Hoje, porém, não restava erva alguma.
Apenas um solo negro e estéril.