Volume I Capítulo 4 O Macaco de Seis Dedos
Roubar uma vida?
Isso não seria matar alguém?
Soltei uma risada fria:
— Procurou a pessoa errada.
Dito isso, virei-me e fui embora.
Do segundo andar, Hua Erlou falou:
— Não recuse tão depressa. Não quer saber notícias da sua mãe?
Sem olhar para trás, respondi:
— Não acredito que você saiba alguma coisa sobre ela.
Na verdade, já vinha desconfiando antes mesmo de chegar aqui. Tang Quezi gastou cinco anos tentando encontrar alguma pista e não conseguiu; não acreditava que esse tal de Hua Erlou pudesse saber de algo.
E mesmo que soubesse, não acreditava que ele me contaria com tanta facilidade.
Ele e eu não somos do mesmo mundo — caminhos diferentes, sem acordo possível.
Mas vim justamente para descobrir qual era o seu jogo, que intenção tinha comigo.
Agora entendi: queria que eu fosse sua lâmina, que eu eliminasse alguém por ele.
Sou um ladrão, não um assassino.
Exceto pelo inimigo que ainda desconheço, não tenho motivos para tirar a vida de ninguém.
Mas mal dei alguns passos e aquele sujeito de queixo pontudo, rosto de macaco e voz rouca de pato, ostentando duas penugens de cavanhaque, saltou à minha frente, barrando minha passagem.
Ele riu, a voz estridente:
— Hehe, você é jovem, mas tem um temperamento e tanto. Não pense que por saber umas coisinhas já é alguém. Sabe com quem está falando?
Enquanto falava, ergueu devagar a mão esquerda.
Só então percebi: sua mão esquerda tinha um dedo a mais — seis ao todo.
Além disso, o dedo extra já estava ressequido, como um galho seco espetado na palma.
— Macaco de Seis Dedos?
Fiquei surpreso.
Minha mãe já me falara dele, uma lenda dos subterrâneos.
Nascido com seis dedos, costumava frequentar a alta sociedade, aproveitando-se dos apertos de mão com ricos para, com o sexto dedo, furtar relógios, pulseiras e anéis.
Era rápido, preciso, imperceptível.
Por ter feições animalescas, ficou conhecido como Macaco de Seis Dedos.
Dizem que, mais tarde, encontrou alguém preparado: no pulso do outro havia uma lâmina escondida, que lhe cortou o nervo do sexto dedo; desde então, aquele dedo apodreceu, tornando-se um galho morto.
Em outros tempos, foi figura de respeito. Como acabou tornado cão de guarda desse desclassificado do Hua Erlou?
Sorri com desdém:
— Se esse dedo extra lhe incomoda, posso arrancá-lo para você.
Minhas palavras o enfureceram.
Ele praguejou:
— Ora, seu merdinha sem educação, hoje vou te ensinar uma lição!
Enquanto falava, ergueu a mão direita e desferiu um tapa.
Ora, a mão esquerda era sua arma; por que me acertaria com a direita?
Era uma finta evidente.
Não desviei; inclinei a cabeça, indo de encontro à mão dele com a testa.
A testa é muito mais dura que a palma — se batesse de verdade, quem sairia perdendo era ele.
E acertei: a mão direita era só distração; com a esquerda fechou o punho, o mindinho esticado, cortando meu abdômen.
No dedo ressequido, havia uma lâmina, como as usadas pela imperatriz Cixi, afiada como uma faca.
Se acertasse minha barriga, abriria um talho; meus intestinos escapariam.
Mas eu estava preparado: levantei a mão direita e golpeei a mão esquerda dele.
Entre meus dedos, escondia uma lâmina fina, que havia caído da mão de Yaoyao quando treinamos antes de entrar no carro, e eu a pegara sem que ela notasse.
O Macaco de Seis Dedos jamais suspeitaria que percebi sua artimanha: a lâmina brilhou, cortando sua mão esquerda.
Ao mesmo tempo, minha testa colidiu com sua mão direita.
— Aaah!...
Ele gritou de dor; o pulso da mão direita saiu do lugar, inchando imediatamente.
Tentou segurar o pulso com a mão esquerda, só então notando o sangue a escorrer.
O dedo extra, marca de sua identidade, fora cortado por mim, rente à base.
— Aaah... aaah!...
Demorou alguns segundos até sentir a dor. Com o pulso deslocado e o dedo amputado, sem saber a quem acudir, cambaleou para trás e caiu sentado ao chão.
Joguei a lâmina para Yaoyao, que até então assistia atônita ao lado.
— Bela lâmina, bem afiada — devolvo a você!
Yaoyao apanhou o objeto por reflexo, mas, ao ver o sangue do Macaco de Seis Dedos, estremeceu de susto e deixou a lâmina cair.
Olhou para mim, um olhar complicado.
Além do medo, li nos olhos dela certa admiração — e, surpreendentemente, havia algo de ambíguo naquela admiração.
— Maldito! Você destruiu minha reputação — agora é vida ou morte entre nós!...
O sujeito apoiou-se com a mão direita, ajeitou o corpo e, com um estalo seco, recolocou o pulso no lugar, uivando de dor.
Do bolso sacou uma navalha de mola e saltou sobre mim.
Pum!
Uma carpa voou em minha direção, acertando em cheio sua cabeça; ele cambaleou, confuso, e caiu sentado numa cadeira.
— Basta. Já chega.
Foi Hua Erlou, que assistira à cena do lado, quem arremessou o peixe.
O golpe atordoou o homem, que ficou um tempo sem entender o que se passava, sentado sem reação.
Hua Erlou aplaudiu, assentindo:
— Não me enganei com você. Tem talento, rapaz.
Meu desprezo pelas palavras dele era absoluto; virei-me para sair.
— Sua mãe não está morta.
A voz de Hua Erlou veio às minhas costas.
Virei-me para encará-lo; ele abriu as mãos e disse:
— Antes da primeira neve, alguém a viu em Tianfeng.
Tianfeng — a capital da província.
Antes da neve, eu mesmo estava em Tianfeng.
Cumpria uma promessa de cinco anos, voltando do sul e fazendo baldeação na cidade.
Se o que Hua Erlou dizia era verdade, estive perigosamente perto de minha mãe.
Uma sensação amarga subiu-me à cabeça.
Senti o nariz arder.
— Não me olhe assim, não estou mentindo — disse Hua Erlou.
— Para mostrar minha sinceridade, começo contando sobre sua mãe. Quanto ao favor, ajude ou não, você decide.
Hua Erlou acenou; alguém lhe entregou uma bolsa de lona. Ele abriu o zíper: notas de dinheiro empilhadas.
— Aqui tem vinte mil — considere um adiantamento. Aceite. Quando for a Tianfeng buscar sua mãe, faça também o meu serviço.
Saí da emoção de saber notícias de minha mãe, olhei de relance para o dinheiro e disse:
— Não faço serviço de assassinato.
Hua Erlou riu alto:
— Brincadeira! Se fosse para matar alguém, eu mesmo faria. Não preciso de tanto rodeio. Só quero que me roube algo — algo que vale uma vida, ou muitas.
Franzi a testa:
— Chega de enigmas. O que, afinal, você quer que eu roube?
Hua Erlou lançou-me um charuto; desviei a cabeça, deixando-o cair ao chão atrás de mim.
Ele franziu o cenho por um instante, depois soltou uma gargalhada.
Acendeu o próprio charuto, tragou duas vezes e disse:
— Um caderno. Em minhas mãos, ele custa uma vida. Em mãos erradas, custará a vida de centenas de inocentes.