Capítulo 6: Procurar um Emprego de Meio Período para Buscar (Observar) Alguém (Suas Pernas)
Tán Yu observou o posto policial à sua frente, sentindo-se um tanto envergonhado por conhecer o número daquela porta tão bem. Era, afinal, um cliente habitual: antes de renascer, cometera tantas imprudências que não foram poucas as vezes em que ali estivera; perguntava-se se seus velhos conhecidos ainda permaneciam lá dentro.
Não muito distante, a oeste do posto policial, encontrava-se a tão falada Praça Gastronômica Qing Tian. Bastava seguir um trecho da Rua Wenshu Leste para chegar. Apesar da proximidade, Tán Yu jamais pusera os pés ali.
Ao chegar diante da entrada da praça, Tán Yu ficou estupefato. Imaginara um centro comercial grandioso, mas, após perguntar a alguns transeuntes, descobriu que a praça se escondia atrás de um portãozinho de aço quase imperceptível.
Aquele portãozinho de aço…
Perdoem-me a falta de elegância na expressão.
Atrás daquele pequeno portão de ferro, um fluxo incessante de jovens, rapazes e moças, ia e vinha. Ao lado, algumas senhoras seguravam cartolinas onde se lia, em letras grossas, “aluguel de quartos”, compondo, junto às meias-calças negras que adornavam as pernas das jovens, uma cena fértil para devaneios.
E pensar que era apenas 2004, e as meias pretas já reinavam soberanas.
Pena não haver uniformes escolares à la JK.
— Jovem, não quer alugar um quarto? — abordou uma das senhoras.
Péssima percepção, a sua. Casais de namorados passavam ao lado e ela não os interpelava, mas vinha logo atrás de mim? Definitivamente, falha na identificação do público-alvo. Eu, alugar quarto? Para quê? Para meditar sobre meus próprios atos?
Tán Yu fez um gesto de recusa: — Se me arranjar um par, volto para alugar um quarto.
Para sua surpresa, a senhora sussurrou, maliciosa: — Cem por encontro, sem cobrar pelo quarto.
“???”
Retiro o que disse sobre a senhora…
…
Alguns minutos depois (e esclareço: o protagonista não fez absolutamente nada de dúbio nesse ínterim), Tán Yu adentrou finalmente a Praça Gastronômica.
O local fervilhava. Dispunha-se em formato quadrangular, com duas fileiras de lojas — interna e externa — onde predominavam os vendedores de petiscos: tiras de frango, lula, mariscos, churrasco, macarrão frio… Delícias para todos os gostos, de lanches rápidos a pratos mais substanciosos, arroz frito a pães e bolos. E o público era composto quase exclusivamente de jovens.
De súbito, Tán Yu foi transportado à época de sua própria universidade; não estudara ali, mas o ambiente lhe era familiar, impregnado do frescor da juventude.
Deu uma volta pelo recinto, mas saiu contrariado: não prestara atenção se o “vampiro” estava ou não presente, distraído demais admirando as pernas alheias.
Sem alternativas, resolveu dar mais uma volta; agora sim, ao sair, pôde constatar: as pernas não estavam.
Perdão pela confusão: o “vampiro” não estava.
Perambular ali, à procura de alguém, não era sensato. De súbito, ouviu uma altercação próxima.
— …Por causa de uma ninharia dessas? Não tem cabimento! Não trabalho mais aqui!
— Vá! Mas se for, esqueça o pagamento! — bradou uma voz.
— Quem precisa do seu dinheiro miserável? Bah! Loja de quinta!
Tán Yu virou-se e viu uma loja de chás e bebidas. Um homem baixo e atarracado, o peito tremulando sob o peso de sua carne, lançava um olhar enviesado e feroz a um jovem que parecia ter idade próxima à sua.
Ao lado deles, uma garota franzina, varrendo o chão, os olhava assustada, como se temesse ser a próxima vítima.
— Xiaowen, não precisa trabalhar aqui, vamos procurar outro lugar — disse o rapaz.
— Eu… eu…
Antes que a tímida jovem pudesse responder, o homem baixo e roliço já lançava sobre ela um olhar gélido.
— Se quiser ir, vá sozinha! Xiaowen não é preguiçosa como você! Jogando no celular durante o expediente!
Naqueles tempos, os celulares só permitiam jogos como Tetris ou Snake. E, ainda assim, havia quem se entretivesse?
Imagine só, quando surgirem os jogos de batalha online…
— Loja de quinta! Quem precisa disso aqui!
— Posso contratar outro a qualquer momento!
Eis que, como quem encontra por acaso o que há muito procura, Tán Yu se apresenta no momento exato:
— Ainda estão contratando? Procuro um bico…
O rapaz ficou espantado, petrificado por um instante. Tirou o avental e, atirando-o ao chão, saiu dali com altivez.
…
Tán Yu teve sorte: foi imediatamente admitido e começou a trabalhar no mesmo instante.
Logo percebeu que o baixo e roliço não era o gerente, apenas um substituto, alguém encarregado de tomar conta da loja na ausência do responsável.
A garota silenciosa chamava-se Mo Xiaowen e, aproveitando um descuido do gerente provisório, apressou-se em lhe sussurrar as regras básicas do lugar.
O homem atarracado chamava-se Gao Shou e tinha alguma ligação com o gerente. Sempre que este se ausentava, Gao Shou gostava de exibir autoridade. O rapaz que saíra, Fang Xiang, de fato jogava no celular — mas só porque não havia clientes naquele momento e, assim que chegava alguém, imediatamente guardava o aparelho.
Além disso, tal comportamento não era comum; tudo começara porque, à hora do almoço, Fang Xiang discutira com Gao Shou.
Tán Yu estranhou. Não conheciam-se; por que lhe contar tantas trivialidades?
— …Não se incomode, só achei que você poderia pensar que Fang Xiang estava errado… — murmurou Mo Xiaowen.
Foi então que Tán Yu percebeu: a energia espiritual adentrava o corpo de Mo Xiaowen com velocidade muito superior à das pessoas comuns, e ela possuía mais pontos de absorção do que o habitual.
O corpo humano possui tais pontos, ocultos entre ossos e músculos, sob a pele. Em alguns, os canais são obstruídos e, mesmo que a energia flua, não se converte em habilidades especiais.
Outros, porém, nascem dotados de talentos excepcionais: a energia penetra por múltiplos pontos, rompendo as barreiras.
Para distinguir entre humanos comuns e os que estão prestes a despertar dons extraordinários, basta observar quão rapidamente a energia do mundo se dissipa ao redor deles.
Mo Xiaowen era uma dessas despertas, prestes a manifestar poderes. Tão sensível, acertara de pronto o pensamento de Tán Yu; seria ela capaz de ler os pensamentos alheios?
Mas, afinal, que me importava se Fang Xiang tinha ou não razão?
Mo Xiaowen pareceu captar novamente a dúvida de Tán Yu. Baixou os olhos, e em seu rosto pálido acendeu-se um rubor delicado, que, unido à sua postura tímida e aos fios de cabelo levemente amarelados, tornava-a ainda mais digna de piedade.
Seu semblante era encantador. Instintivamente, Tán Yu desviou o olhar para seu busto, admirando a curva delicada, e assentiu levemente:
— De fato, o problema está claramente com o nosso “arredondado”…
— …“Arredondado”?
— Ah, nada, refiro-me ao substituto do gerente.
O rosto de Mo Xiaowen corou ainda mais.
…
O ser humano é, no fundo, trivial: tudo que faz, dia após dia, resume-se a buscar as três refeições cotidianas.
Entre Fang Xiang e Mo Xiaowen havia, sem dúvida, algo não dito; mesmo que não fossem namorados, havia ali uma cumplicidade que excedia a amizade.
Em poucas horas, Tán Yu percebeu que Gao Shou, o homem baixote, nutria segundas intenções por Mo Xiaowen. E, curiosamente, mesmo antes de despertar poderes, a sensibilidade da moça já era aguçada: não seria possível que ela não pressentisse tal interesse.
Ou seria…?
Ao olhar para Mo Xiaowen, que preparava uma bebida, percebeu que ela também o observava; suas faces rubras e o brilho nos olhos sugeriam que compreendia tudo, mesmo sem palavras. Uma perspicácia notável.
— O tio Gao realmente é gentil comigo… Sempre me conta uma hora extra no final do dia…
Naquele tempo, uma hora valia oito yuans — longe do que se pagaria anos depois, mas, para Mo Xiaowen, era como ganhar uma refeição diária.
Enfim, conquistar uma moça gastando o salário do patrão… Eis alguém digno de admiração!
E pensar que eu ainda precisava aprimorar minhas próprias habilidades…
— No trabalho, concentre-se! Não é porque o gerente não está que deve relaxar! — soou uma voz áspera ao lado.
Tán Yu ergueu os olhos: era Gao Shou, o substituto do gerente.