Capítulo 4: Mudança Súbita no Cume da Montanha
Mesmo vestindo as roupas mais ásperas e comendo o arroz frio mais difícil de engolir, nada disso lhe importava; bastava-lhe sentir que poderia atravessar aquele período serenamente. Afinal, sua mãe era sua maior vulnerabilidade, e ela não poderia permitir que sua própria vaidade se transformasse em tormento para a mãe.
Por isso, ele não desejava se inserir no abismo entre as irmãs; afinal, onde há muitos, há conflitos, e todos querem destacar-se, todos almejam ocupar o cume, ser aquele que olha os demais de cima.
— Mãe, você ouviu o que a irmã disse, não é? Eu apenas sairei para ver o mundo, e ao retornar, contarei à senhora as coisas divertidas que aconteceram hoje.
Após pronunciar essas palavras, a mãe permaneceu indiferente, o olhar perdido, fixo ao longe. Então ela, junto de Liu Die’er, abriu a porta e saiu.
— Hoje é realmente um belo dia, o sol resplandece, iluminando todo o solar Liu com um ar primaveril. Hoje, toda a família se reúne aqui para abençoar e celebrar o solar Liu, congratulando-o por alcançar honra tão sublime, e desejando que a fortuna da família Liu cresça cada vez mais.
Nesse momento, um homem de túnica parda, com as mãos unidas em saudação, voltou-se para o centro da mesa redonda, onde estava o velho senhor Liu.
— Muito obrigado, muito obrigado a todos pelo apreço à família Liu. Os negócios de nossa casa devem muito à benevolência e ao carinho dos senhores. Se conseguirmos manter nossa posição em Shangjing, será graças ao cuidado de todos para com este Liu.
O velho senhor Liu ergueu a taça de vinho sobre a mesa, brindando aos presentes. Imediatamente, todos no grande pátio da família Liu levantaram suas taças, celebrando-o em voz alta.
Naquele instante, o senhor Liu ostentava um rubor saudável no rosto, ouvindo sem reservas os elogios dos convivas, deleitando-se com aquele momento de glória.
— Não se preocupe, senhor Liu: em Shangjing, sempre que nos sentamos para beber, é imperativo que seja em banquetes da família Liu. O vinho de sua casa é apreciado por todos, jovens e velhos, cada um com sua predileção. Quer seja um ancião, um homem robusto de meia-idade, ou mesmo as mulheres da casa, todos podem saborear o vinho Liu, uma iguaria dos deuses. Devemos agradecer à família Liu por nos proporcionar tal deleite.
— Senhor Gao, não me ponha num pedestal! Se nosso vinho é tão saboroso, que tal hoje beber até não poder mais? Caso contrário, seria uma desfeita a mim.
Diante deste espetáculo mútuo de exaltação, muitos suspiraram; ninguém sabia que, por trás da cordialidade, agitava-se uma tempestade oculta.
O senhor Gao era proprietário da Casa de Chá Gao, famosa dentro e fora da cidade, com uma linhagem e tradição próprias em Shangjing. Naturalmente, o vinhedo Liu representava uma ameaça considerável aos negócios de chá. Mas hoje o senhor Liu fez questão de convidar Gao, com o intuito de mostrar-lhe quem manda: quem ousar competir em Shangjing, encontrará o solar Liu irredutível.
Enquanto os de fora admiravam a relação entre ambos, ignoravam que havia ali uma disputa velada.
— Senhor Liu, trago-lhe hoje uma pequena lembrança, para o senhor e a senhora: alguns chás de renome. Espero que aceite de bom grado. Aqui há Chá Preto de Qimen, Chá Branco e até o puro Pu’er. Se gostar, poderei enviar mais ao solar Liu.
O senhor Gao falou sorrindo.
— Gentileza sua, senhor Gao! Como soube que minha esposa aprecia Pu’er? O aroma intenso do Pu’er, combinado ao cítrico da casca seca de tangerina, resulta numa experiência inesquecível. Sempre que chega a tarde e o cansaço, minha esposa prepara uma chaleira de chá, e degusta no quiosque do jardim; o perfume tantas vezes me atrai da sala de estudos até ela. Agora, recebendo de suas mãos, sei que é do melhor.
Ambos riram e brindaram, esvaziando as taças.
Naquele momento, Liu Die’er e Liu Mei’er, que haviam saído do quarto, escondiam-se sob uma árvore ao lado do jardim, observando discretamente o desenrolar dos acontecimentos.
— Dizem que o solar Liu possui uma filha de beleza singular, quase comparável à princesa de Shangjing; ambas são tão semelhantes que não se distingue quem é superior. Não sei se hoje, diante do senhor Liu, permitiria que sua filha fosse prometida a um dos filhos da família Yuan, ainda que sejam pouco dignos.
O senhor Yuan, sentado à mesa lateral, falou abruptamente. Com isso, todos perceberam que, ao lado do anfitrião, sentava-se uma jovem de beleza celestial.
Todos os olhares se voltaram para Liu Qing’er. Sentindo-se alvo da atenção dos convidados, Liu Qing’er corou.
Ela pareceu querer dizer algo, mas foi impedida pela senhora Liu ao seu lado.
— Agradeço a estima de todos. Minha filha pode ser bonita, mas não se compara àqueles que ocupam posições tão elevadas. Peço que não façam tal comparação; se tais palavras chegarem ao palácio real e forem ouvidas pela princesa, não seria um problema para nossa família Liu?
— Ora, senhor Liu, não precisa de tanta modéstia. A beleza de sua filha é reconhecida por todos nós. São apenas palavras entre conhecidos, não há motivo para tanto receio; não creio que a princesa do palácio tema que tais rumores cheguem até ela. Quem sabe, ao saber de uma jovem tão parecida consigo, não queira vir conhecê-la.
Sentada ao lado do pai, Liu Qing’er olhou para os três filhos do senhor Yuan. Todos estavam absortos, comendo doces diante de si, e, mesmo após o pai fazer tal proposta, nenhum deles se pronunciaram.
— Muito bem, muito bem, hoje é um dia de alegria, não irei insistir. Não sei se os três jovens da família Yuan se sentem atraídos por minha Qing’er. Ela vive em casa, come quando quer, mas talvez nem seja tão digna assim. As filhas da segunda e terceira esposa são até mais bonitas. Não sei se os filhos do senhor Yuan aceitariam minha Die’er.
O senhor Liu falou com cortesia.
— Vocês três, meus filhos indolentes, vejam só! Hoje a senhorita Liu Qing’er está diante de vocês. Sempre me dizem quão bela é a filha do solar Liu; agora chegou a hora de mostrar-se.
O senhor Yuan mudou abruptamente o tom, passando a palavra aos filhos.
— Vejam só, com tantos convidados, acabou sendo o palco dela! Era para celebrarmos a inauguração do nosso vinhedo, e agora virou um evento para escolher marido para ela. É irritante!
Liu Die’er bateu o pé, indignada.
— Ora, ora, tantos anos já se passaram, e você ainda não se habituou? Afinal, nesta casa, a mais favorecida é Liu Qing’er, graças à sua mãe poderosa. Quem mandou elas garantirem o lugar de primeira esposa?
Liu Mei’er, ao lado, comentou.