Capítulo 001: Comunidade Yaoxuan?
Lin Xi despertou. Desde que “morreu”, nunca mais experimentara o sono. Raiva, arrependimento, desespero, amargura… Uma torrente de emoções enovelava-se em seu peito. Sempre conhecida por sua franqueza e pela fama de “adormecer em segundos”, Lin Xi enfim compreendera a dor da insônia. Mas não se tratava de insônia – era ausência completa de sono. Nos mais de quatro meses, cento e trinta dias e noites desde a sua “morte”, ela permanecera lúcida, obrigada a confrontar incessantemente todas as suas emoções negativas. Lin Xi sentia que aquilo era o castigo celestial por sua falta de discernimento, que arruinara a si mesma e aos outros.
No momento em que o ser humano é mais frágil, pode desmaiar, até mesmo enlouquecer. Mas ela era uma alma aprisionada, consumida por ódio e remorso como se milhares de formigas lhe devorassem o coração a cada instante desses cento e trinta dias e noites. Nem viva, nem morta, sem sono, sem descanso – até desejar a loucura era um luxo inalcançável, quanto mais um sono sem sonhos.
Lin Xi quase acreditou que apenas tivera um longo pesadelo. Espreguiçou-se, sentindo o corpo inteiro relaxar, mas logo percebeu que era apenas uma tênue nuvem de contornos vagamente humanos. Encontrava-se num espaço cinzento e nebuloso; sob seus pés, havia apenas um recipiente de vidro, com trinta centímetros de lado, contendo um líquido transparente onde suas “duas pernas” repousavam. Uma frescura reconfortante e tranquilizadora subia de seus pés, espalhando-se por todo o corpo – uma sensação indescritivelmente agradável.
“Bem-vinda à Comunidade Yaoxuan. Após análise, resistência da alma aprovada. Pode iniciar a Prova de Novato Yaoxuan!”
A voz masculina, grave, soou de repente, assustando Lin Xi. A voz era magnética, porém extraordinariamente fria – não transmitia o menor resquício de emoção.
Lin Xi estava prestes a perguntar: “Quem é você?” Mas, ao soar aquela voz, um gigantesco painel azul, semelhante a um monitor de cristal líquido, surgiu à sua frente, ao alcance de sua mão, exibindo duas opções:
1. Manter a essência da alma e entrar na prova.
2. Reconstituir a essência da alma e ingressar na reencarnação.
Diante dessas alternativas, Lin Xi ficou atônita e, por instinto, perguntou: “O que significa manter a essência da alma? E reconstituir?”
A voz, magnética e gélida, respondeu: “Manter a essência da alma significa conservar todas as suas memórias da vida anterior e ingressar na Comunidade Yaoxuan como executora, viajando entre planos de missão para cumprir as tarefas designadas pelo Espaço Principal. Reconstituir, por sua vez, implica formar uma nova alma e adentrar o ciclo de reencarnação, iniciando uma nova existência. Em outras palavras, você ainda existirá, mas já não será você mesma.”
Lin Xi compreendeu: sua chamada “essência da alma” continuaria a existir, mas, após ser reorganizada, já não seria ela mesma – ou seja, ela deixaria de existir.
Estava prestes a escolher a primeira opção, quando uma dúvida a assaltou: “O que acontece se eu não cumprir as tarefas do Espaço Principal?”
“Fora do período de prova, ao fracassar uma vez, todos os atributos da alma são reduzidos pela metade; ao fracassar duas vezes consecutivas, toda a essência da alma será subtraída!” A voz sem emoção ressoou fria, fazendo Lin Xi estremecer. Ou seja, fracassar duas vezes seguidas significava perder completamente a essência da alma, sem sequer o direito de reencarnar – o fracasso equivaleria ao aniquilamento absoluto.
Lin Xi levou a mão à testa. Não há mesmo almoço grátis neste mundo!
Mas, ao recordar o grito que dera antes de sair do pingente de jade, percebeu que ao menos ainda estava viva, não se dissipara no nada. Será que o destino escutara seu desejo e lhe concedera uma nova chance para viver? Contudo, seus pais… Pensar nos velhos pais, no pai asmático e na mãe de cabelos já brancos, fazia-lhe o coração rasgar-se em dor lancinante.
A voz fria soou novamente: “Você dispõe de três horas para considerar. Após esse prazo…”
Lin Xi não esperou a frase terminar e interrompeu: “Não preciso pensar. Escolho a primeira opção.”
Sua decisão resoluta pareceu surpreender ligeiramente a voz: “Não vai reconsiderar? Se falhar na prova, perderá imediatamente toda a essência da alma. Você precisará completar três missões de prova consecutivas para tornar-se uma agente oficial do Espaço Yaoxuan. É verdade que, sendo provas para iniciantes, as tarefas serão relativamente simples, mas um único fracasso resultará em eliminação imediata, sem direito à reencarnação. Tem certeza de que não quer reconsiderar?”
O aviso gélido despertou em Lin Xi o impulso e a teimosia que lhe eram próprios: “Sim, não preciso pensar. Estou certa de minha escolha.”
“Sente-se em meditação no reservatório sob seus pés. Daqui a três horas, iniciaremos a prova!”
Lin Xi teve a impressão – talvez um engano – de captar um leve traço de emoção naquela voz, que murmurou baixinho: “Um pouco tola, mas ainda não completamente.”
Está me elogiando ou me elogiando ou me elogiando? Bem, vou fingir que é um elogio.
Consolando-se, Lin Xi abaixou a cabeça para examinar o chamado “reservatório de almas”. Ao redor, tudo era enevoado, exceto pelo recipiente de vidro sob seus pés, tão pequeno que chamá-lo de reservatório soava ridículo. O cinzeiro de vidro que comprara para o pai era maior que aquilo!
Sentada de pernas cruzadas no… bem… cinzeiro-reservatório de almas, Lin Xi ironizou em pensamento, um leve sorriso (se almas pudessem sorrir) desenhou-se em seus lábios.
De súbito, ficou atônita. Desde que entrara no pingente de jade, sua existência fora marcada por ansiedade, rancor, indignação e quase loucura. Chegara a crer que perdera a capacidade de sorrir. Mas agora, uma leve frescura emanava do reservatório, lavando sua alma, devolvendo-lhe uma paz há muito esquecida. Hm? Este reservatório de almas, afinal, era um verdadeiro tesouro!
Lin Xi então compreendeu o que a voz fria não dissera: quanto mais tempo gastasse pensando, menos tempo teria para meditar no reservatório. Embora lhe concedessem três horas para refletir, provavelmente, ao término desse tempo, seria lançada diretamente à missão de prova.
Ora, se prepararam esse reservatório de almas, e lhe deram um nome tão grandioso, mesmo que pareça insignificante, certamente traz benefícios imensos!
Com esse pensamento, Lin Xi afastou todas as outras preocupações, esvaziou a mente e concentrou-se em entrar num estado meditativo. Quando a voz gelada a notificou para iniciar a missão, ela percebeu que sua alma adquirira até certa densidade, deixando de ser aquela névoa leve que poderia se dissipar a qualquer sopro.
Mal teve tempo de se alegrar, porém, e uma força a arrancou daquele espaço cinzento. Seguiu-se uma vertigem avassaladora, como se fosse dilacerada em fragmentos – uma sensação insuportável!
O torvelinho nauseante quase a fez sucumbir, mas Lin Xi fechou os olhos e lutou para se recompor. Por mais tonta que estivesse, sabia que estava agora dentro daquela maldita prova. Era sua primeira missão – se sua entrada fosse marcada por um vômito espetacular, passaria o resto da vida se desprezando.
Com esforço, a vertigem foi cedendo e Lin Xi abriu os olhos com cautela. O que viu foi um aposento impregnado de antiga elegância.
Deveria ser noite. O luar suave filtrava-se pela seda da janela, indicando tratar-se do quarto de uma jovem donzela: cortinas discretas, móveis simples e, não muito distante, um espelho de bronze um tanto desgastado. Sobre a antiga mesa de madeira, uma lamparina tremeluzia, e uma garota de quatorze ou quinze anos, trajando roupas de criada, repousava o queixo na mão, cochilando.
Lin Xi piscou. Estaria, então, sua primeira missão começando? Enquanto ainda se indagava, uma torrente de informações irrompeu em sua mente, quase a fazendo explodir…