Capítulo 6: O Caminho da Sobrevivência V
Deixe pra lá, e se for um zumbi? Mal posso garantir minha própria sobrevivência, melhor não me envolver com problemas alheios.
Ela tentou se tranquilizar, preparando-se para arrancar com o veículo.
Mas, inesperadamente, alguém dentro do carro se moveu e, com sangue, desenhou um “SOS” no vidro translúcido.
Seu rosto estava pálido.
Seus olhares se cruzaram…
Por que, logo agora, tinham que se encontrar desse jeito!
Entre irritada e resignada, Chu Yi'an puxou o freio de mão. Queria se preservar, mas a educação que recebera não lhe permitia ignorar alguém em perigo.
Vale a pena tentar.
Remexendo no pequeno triciclo, ela encontrou uma chave inglesa de ferro. Aproveitando que a maioria dos zumbis estava encoberta pelas lonas das barracas, saiu do triciclo, subiu ao teto dos carros colididos e alcançou o veículo onde o homem estava preso.
Esse homem… era surpreendentemente belo. Mesmo agora, com o rosto desmaiado e os olhos baixos, a camisa branca encharcada de sangue, emanava uma frágil e tocante beleza.
Chu Yi'an ficou atônita por um segundo, mas logo recobrou o juízo.
— Irmão, você foi mordido?
Embora ele fosse bonito, beleza não enche barriga. Se tivesse sido mordido, Chu Yi'an fugiria mais rápido do que se dispunha a salvar alguém.
— Não, é sangue de outra pessoa.
Isso… Você diz que é de outra pessoa e eu tenho que acreditar?
O já vacilante desejo de Chu Yi'an de ajudar os outros vacilou ainda mais.
O homem, como se enxergasse sua alma através dos óculos de aro dourado, disse:
— Após ser mordido por um zumbi, a transformação ocorre em 10 a 12 segundos. Não percebeu que o sangue na minha roupa já está quase seco?
Salve-me agora, e ainda teremos trinta segundos para fugir.
A voz dele era suave, mas continha uma estranha firmeza e autoridade.
Chu Yi'an olhou para a chave inglesa nas mãos, depois golpeou com força a janela do carro.
Com um estrondo.
A janela permaneceu intacta, mas sua mão ficou dormente de tanto impacto.
— Este carro foi especialmente modificado, não pode ser aberto pela força.
O homem tocou algo dentro do veículo, e o para-brisa dianteiro começou a descer lentamente.
— Agora aperte aquele botão vermelho no painel do motorista.
Chu Yi'an obedeceu.
No instante seguinte, o cinto de segurança do homem se soltou, e do teto do carro saltou um compartimento oculto com uma pistola.
Que tipo de carro era aquele, tão sofisticado?
Como simples cidadã, Chu Yi'an jamais vira algo assim e olhou para dentro, intrigada.
— Ajude-me.
O homem estendeu a mão.
Chu Yi'an o agarrou e, com força, puxou-o para fora. Ele franziu a testa de dor, mas foi arrancado do carro.
Era um homem alto.
Ombros largos, cintura fina, pernas longas.
Mas havia um ferimento na coxa esquerda, ainda com cacos de vidro cravados.
Num impulso, Chu Yi'an perguntou:
— Esse sangue é seu, não é?
O homem não respondeu. Apenas apoiou uma mão em seu ombro, usando-a de muleta, enquanto com a outra empunhava a pistola e disparava, certeiro, contra os zumbis que, rompendo o tecido da barraca, corriam em sua direção.
A pontaria era impecável, cada tiro um alvo.
Mas, em meio ao silêncio da cidade, os disparos, apesar de eliminarem alguns zumbis, atrairiam dezenas de outros.
Chu Yi'an reprimiu a curiosidade, apoiou o corpo dele e acelerou o passo em direção ao triciclo. O homem continuou limpando o caminho à bala até que ela o empurrou para dentro do veículo.
Os zumbis já os perseguiam.
O da frente agarrou a traseira do triciclo, urrando e tentando rasgar o fino metal da carroceria para poder entrar.
Ouvindo os sons atrás de si, Chu Yi'an acelerou ao máximo. As pernas do zumbi se arrastavam pelo chão, misturando ossos e carne à poeira da rua. Ela fez duas curvas rápidas até conseguir despistá-los.
Meu Deus, que susto!
Seus lábios tremiam de nervosismo com toda aquela tensão.
— Siga reto por esta rua, dobre depois da ponte Pingyu.
Ao contrário do desespero de Chu Yi'an, o homem ao lado mantinha a mesma voz estável do início ao fim. Seu tom calmo e seguro transmitia uma estranha sensação de paz.
— Irmão, estamos indo para onde?
— Para a periferia.
Ele era de poucas palavras.
##
Periferia
À medida que os carros rareavam ao redor, finalmente não havia mais zumbis à vista.
Chu Yi'an parou o triciclo à beira da estrada, tirou duas garrafas d’água e ofereceu uma ao companheiro.
— Irmão, meu nome é Chu Yi'an, sou estudante. Como se chama? É professor na nossa escola?
— Lu Qingyuan, pesquisador. Vim à sua escola para dar uma palestra.
Pesquisador?
Pela sofisticação do carro, devia ser alguém do mais alto escalão.
Na cabeça de Chu Yi'an, já se formava a imagem de uma eminência dando palestra na universidade, surpreendida pelo surto do vírus zumbi. Escoltado por seguranças, mas, ao colidir o carro na saída, ficou cercado pelos mortos-vivos. Todos os seguranças morreram tentando protegê-lo, restando apenas ele, isolado no carro, à espera de resgate.
Até que encontrou a destemida heroína que ela era.
E, então, foi salvo por ela e seu triciclo elétrico…
Por que, de repente, a cena ficou tão… tosca?
Ao olhar para o pequeno triciclo sob si, Chu Yi'an sacudiu a palavra “tosca” da mente.
— Professor Lu, ouvi no rádio que há um ponto de resgate no condado de Fulun, em X. Quer vir comigo?
— Sim, claro.
Chu Yi'an esperava uma recusa, mas ele aceitou imediatamente.
— Professor, não tem nenhuma objeção?
— Nenhuma — respondeu ele, sucinto.
Diante disso, Chu Yi'an não pôde evitar de lhe lançar um segundo olhar.
Tendo se encontrado por acaso, a confiança dele nela era, de fato, comovente.
— Então vamos tratar primeiro do seu ferimento, depois buscar um mapa e um veículo apropriado para ir até X.
Chu Yi'an expôs seu plano e, de passagem, perguntou:
— Você sabe dirigir? Acabei de aprender e minha habilidade… ainda tem bastante espaço para melhorar.
Esse espaço, na verdade, consistia em só saber pisar na embreagem e no freio, sendo ainda bem inexperiente com o acelerador e as marchas.
— Não precisamos de mapa, sei onde fica X.
Lu Qingyuan, pálido de dor, prosseguiu:
— Basta ir à farmácia buscar anti-inflamatórios, álcool e uma pinça, depois procurar um veículo alto, próprio para terrenos irregulares.
Pelo jeito de falar, ele claramente sabia dirigir. Além disso, conhecia o caminho para X, sabia atirar, tinha raciocínio rápido.
Chu Yi'an sentiu que o novo companheiro parecia bastante confiável.
Quanto aos remédios…
Ela se lembrou do que trouxera do dormitório pela manhã: apenas alguns mililitros de álcool e meia caixa de amoxicilina. O que mais tinha era montmorilonita, que servia, ao que parecia, para diarreia.
Definitivamente precisariam passar na farmácia.
Seguindo pela periferia, guiados por Lu Qingyuan, chegaram finalmente a uma pequena cidade.
Ruas e lojas estavam desertas, os automóveis amontoados de qualquer maneira, bloqueando as vias estreitas. Lixo espalhado por todos os lados, membros decepados aqui e ali, o cheiro de sangue impregnando o ar…