Capítulo Dois: A Jovem Ameixeira, Gwen

Kekasihku adalah seorang putri Krypton. Xu Shaoyi 3227kata 2026-03-12 14:46:14

Manhã de inverno.

Flocos de neve, grandes como plumas de ganso, caíam do firmamento e se espalhavam por todos os recantos da metrópole. Era ainda o início da alvorada, quando o céu mal começava a clarear, mas Washington, como cidade de primeira grandeza internacional, já pulsava com a energia que lhe era própria. Pelas ruas recém-limpas do acúmulo de neve, as silhuetas de estudantes e trabalhadores cruzavam-se incessantemente.

Bii-bii!

Um carro de polícia local avançou devagar até estacionar à beira da rua, junto a um condomínio. A porta se abriu e, do banco de trás, saltou uma adorável jovem loura, com a mochila pendurada na mão.

— Gwen, devagar, teu cantil! — chamou o policial George, descendo do assento do motorista. Vestia o uniforme de gala da corporação e, segurando o copo térmico da filha, não pôde evitar que a voz lhe soasse carregada de carinho e ternura: — Tem certeza de que não precisa que eu te leve à escola? As ruas estão escorregadias, ainda neva.

Gwen pegou o cantil e o guardou na mochila, recusando com voz cristalina:

— Não precisa, papai. Trouxe guarda-chuva e estou usando botas antiderrapantes.

— Mas...

George ainda queria insistir, quando Gwen, de repente, arregalou os olhos, as faces coloridas pela alegria e entusiasmo, saltitando tal qual um coelhinho, agitando o braço com vigor na direção de alguém:

— Xinian, aqui! Aqui!

— Eu já sabia — suspirou George em pensamento, voltando-se para confirmar o que previa: lá estava, na esquina, a figura familiar de um jovem.

O chamado fez com que Xinian levantasse o olhar e, ao ver os dois, acenou sorridente:

— Gwen, tio George, bom dia! Que coincidência encontrá-los de novo!

Entre eles havia certa intimidade.

Gwen, cujo nome completo era Gwen Stacy, era uma garota da mesma idade que morava ali perto. Desde pequenos frequentaram o mesmo jardim de infância, passaram pela escola primária, pelo ginásio e agora dividiam a mesma escola secundária — eram, a bem dizer, amigos de infância, inseparáveis. O pai dela, um policial de certa reputação e autoridade, era responsável justamente pelo policiamento daquela área da cidade — George Stacy.

— Sim, é mesmo uma coincidência — respondeu Gwen, os olhos curvados num sorriso impossível de conter.

Ao redor, a neve reluzia, branca e cristalina; apenas o rosto de George parecia ensombrado.

Coincidência? Que nada! Era evidente que a filha calculava o horário para encontrar aquele rapaz.

Naturalmente, George não teria coragem de desmascarar tão ingênua intenção da filha. Pelo contrário — sentia-se antes compelido a protegê-la. Ademais, a família de Xinian já fora investigada por ele, há dez anos: um rapaz de origem triste, mas bondoso.

— Ah! Xinian, por que você não está de chapéu? Nem trouxe guarda-chuva! — exclamou Gwen, aproximando-se dele rapidamente. Sem esperar resposta, limpou com as mãos a neve pousada em seus cabelos e sobrancelhas.

— Saí apressado, acabei esquecendo — sorriu Xinian, ignorando o turbilhão de pensamentos que o inquietava.

— Ainda assim, não pode descuidar do frio, senão vai acabar resfriado — Gwen inflou as bochechas num gesto de irritação que só aumentava seu charme.

Num impulso, tirou o gorro felpudo da própria cabeça e o colocou em Xinian, aquecendo-lhe o rosto com as mãos. Para quem visse de fora, seria um gesto de intimidade; mas, entre os dois, amigos de longa data, era algo natural, sem segundas intenções.

— Está frio, deixem que eu os levo à escola — disse George, incapaz de assistir a cena por mais tempo.

Gwen não respondeu, apenas ergueu os olhos para Xinian.

— A escola não fica longe, eu posso... — começou Xinian, com a intenção de recusar, mas ao notar o olhar penetrante do policial, mudou de ideia: — Então, agradeço, tio George.

— Deixo por sua conta, papai — sorriu Gwen.

— Não há de quê! — George enrijeceu o corpo, resignando-se ao papel de motorista por amor à filha.

Em poucos minutos, a viatura ganhou a avenida principal, rumando à escola secundária.

No interior aquecido do carro, Gwen e Xinian sentaram-se juntos no banco de trás. Xinian, ao olhar a paisagem invernal que passava veloz pela janela, mostrava-se, por vezes, absorto e distante.

De repente, sentiu a mão cálida e macia de Gwen envolver a sua. Ao virar-se, deparou-se com o rosto dela, estampado de preocupação.

— Xinian, está tudo bem? Você parece tão pensativo... não está se sentindo bem?

— Eu... — Xinian hesitava em como se expressar.

O que lhe perturbava desde que saíra de casa era, naturalmente, a fotografia misteriosa que encontrara. Ainda voltara à porta depois, mas quem a colocara já havia sumido, deixando apenas um rastro de enigmas.

Aquela foto teria mesmo sido tirada na época da Primeira Guerra? E aquela mulher, vestida como sua tia, seria a mãe dela? Impossível — a guerra já distava quase um século, seria no máximo a avó de sua avó.

Se recorresse ao pai de Gwen, talvez conseguisse encontrar quem deixara a foto.

Hesitante, Xinian respondeu apenas:

— Não é nada, só senti um friozinho.

— Assim você não sentirá mais frio — disse Gwen, abraçando com as duas mãos o braço esquerdo de Xinian. A proximidade fazia com que um sentisse nitidamente o calor do outro.

George, ao volante, lançou um olhar pelo retrovisor e quase perdeu o controle da compostura.

Ver sua filha, tão inocente e delicada, se entregar de bandeja a um rapaz — ainda que fosse um jovem de aparência gentil, criado sob sua vigilância — era algo intolerável para qualquer pai!

Mas, pensando bem, mesmo um leigo notaria as intenções da filha. Já o rapaz, ao que tudo indicava, não parecia corresponder...

Ser pai era, por vezes, um tormento.

...

A viatura parou em frente à escola. Quando Gwen e Xinian desceram, atraíram logo os olhares de muitos estudantes.

Só então Xinian percebeu, com mais atenção, a aparência de Gwen naquele dia: vestia um novo casaco bege de penas, por baixo uma suéter artesanal colada ao corpo, as pernas longas envoltas por jeans brancos justos, e botas pretas altas que realçavam ainda mais sua estatura. Aos dezesseis anos, seu corpo exalava juventude; o cabelo curto dourado, vibrante e alegre, e o rosto delicado faziam dela, aos olhos alheios — simplesmente deslumbrante!

Por terem crescido juntos, Xinian já estava habituado. Mas ao notar a reação invejosa dos outros, percebeu, de repente, como Gwen era popular na escola.

— Gwen, acho melhor soltar minha mão — sugeriu.

— Não quero, assim fico mais quentinha — respondeu ela, apertando ainda mais o braço dele, que se perdeu numa sensação cálida e suave, quase elástica.

Xinian, é claro, não pensava em segundas intenções.

Já os estudantes ao redor, com olhos rubros de inveja, quase bradavam em silêncio: "Maldição, solta ele agora!"

— Se não soltar, vou acabar morto pelo olhar deles — brincou Xinian.

— Você, que já enfrentou bandido armado na escola primária, vai ter medo disso? — riu Gwen, soltando-lhe finalmente o braço, o rosto corando ao se dar conta do gesto.

— Não fale dos meus erros do passado — Xinian coçou o nariz, embaraçado. Naquela época, sob influência dos quadrinhos e depois de visitar o museu do Capitão América, acreditava ter vocação para ser super-herói.

Se não fosse pela chegada da polícia, talvez já tivesse reencarnado pela terceira vez.

Após dezesseis anos de vida comum, Xinian, um renascido sem poderes ou sistemas, aceitara plenamente sua condição. Quantos super-heróis excepcionais realmente existiam? Num mundo de bilhões de pessoas, apenas Capitão América, Homem de Ferro, Batman, Superman...

Dentre eles, Superman nem era deste planeta.

— Não é medo de problemas — acrescentou Xinian, ignorando os colegas indignados, enquanto caminhava pelo corredor aquecido do prédio escolar. Olhando para Gwen, provocou: — Só acho que isso não é bom pra você. Dizem que você é candidata a ser a número um da escola.

— Onde ouviu isso?! — exclamou Gwen, fingindo irritação.

Naquele instante, porém, Gwen percebeu que ser "amiga de infância" nem sempre era uma bênção; relações que se cristalizam ao longo dos anos são difíceis de transformar.

Enquanto Gwen e Xinian passavam pelo corredor, dentro de uma sala de aula do décimo ano, uma jovem de óculos, sentada no canto da última fileira, olhava distraída para fora, acompanhando com o olhar a silhueta de Xinian.

— Kara, o que você está olhando? — perguntou-lhe uma colega ao se aproximar da mesa.

— Nada — respondeu Kara, apressando-se em desviar o olhar.

— É mesmo? — desconfiou a amiga, seguindo a direção que Kara fitava, mas só encontrou uma parede coberta de grafite artístico.

A parede espessa impedia qualquer visão do corredor lá fora — e tudo que por ali passava ficava oculto ao olhar da sala.