Capítulo Dois — Constituição do Fogo Celestial
De volta ao quarto, Gu Fan fechou cuidadosamente portas e janelas, revisando-as várias vezes antes de, finalmente, retirar o pingente de jade e depositá-lo sobre a mesa. Em multipresença de circunstâncias como essa, não ousava agir de outra maneira: carregar consigo um pingente que abrigava a alma de um verdadeiro mestre era um risco demasiado grande; se por ventura essa notícia se espalhasse, as consequências seriam simplesmente inimagináveis.
— Rapaz, deposite uma gota de sangue sobre o pingente e reconheça-o como seu mestre — ordenou a voz vinda do jade.
Gu Fan hesitou, relutante em seguir tal orientação; aquela prática de reconhecimento pelo sangue lhe parecia, sob sua ótica, algo deveras estranho.
— O que foi? Ainda temes que eu esteja tramando algo contra ti? — a voz no interior do pingente demonstrou certo desagrado ante a hesitação de Gu Fan.
— Pelo visto, desconheces o método de despertar o Corpo do Fogo Celestial. Talvez eu seja, neste mundo, o único capaz de auxiliar-te — a voz tornou a soar, acelerando-lhe o coração e levando Gu Fan a começar a crer nas palavras daquele espírito aprisionado.
Segundo a alma que residia no pingente, ele não era, afinal, um inútil!
A oportunidade para cultivar estava diante de seus olhos. Após longa deliberação, Gu Fan fincou um corte no dedo com uma tesoura, deixando que o sangue escorresse sobre o jade.
— Tsc... Isso dói — arquejou, sentindo o ardor da ferida; afinal, por não ser um cultivador, tais atos de automutilação eram-lhe extremamente dolorosos.
— Ora, rapaz, já não consegues suportar sequer isso? — O pingente começou a emitir um brilho tênue; uma tênue fumaça azulada ergueu-se, tomando, por fim, a forma de um torso humanoide.
— Quantos anos se passaram... Enfim, estou livre — exclamou a figura etérea ao contemplar seu próprio corpo. Era uma silhueta humana, despida de traços faciais, como se modelada em argila, apenas com um tom azul-claro.
— Você... você não faça nada de precipitado! — Gu Fan, atônito diante da aparição, recuou instintivamente.
— Que tipo de pessoa pensas que sou, rapaz? — o ser pareceu ofendido. — Eu, que fui... — Calou-se subitamente, como se as lembranças pesassem demais para serem proferidas.
— Posso saber o nome do senhor? — perguntou Gu Fan, recompondo-se e saudando-o com reverência.
— Yue Linglong. E então, ficou surpreso? — respondeu a figura, acariciando uma barba inexistente, em tom de vanglória.
Gu Fan conteve o ornamento de um sorriso; Yue Linglong, afinal, não era nome de mulher? — Senhorita Linglong...
— Me chame de Mestre Yue, nada de apelidos! — disse o espírito, dando-lhe uma pancada na cabeça, fazendo Gu Fan gritar de dor enquanto massageava o local.
— Sim, sim, Mestre Yue — pensou Gu Fan consigo mesmo, raro sobrenome esse.
— Pois bem, se deseja minha ajuda, a partir de agora és meu discípulo, rapaz — Mestre Yue acomodou-se em uma cadeira, assumindo ares de uma autoridade inquestionável.
Gu Fan apressou-se em retirar do baú uma caixa de chá “Estrela do Céu”, guardada há anos, e preparou uma infusão para Mestre Yue.
— Mestre, aceite a saudação de seu discípulo — reverenciou-se Gu Fan.
— Agora sim, tens algum jeito — Mestre Yue sorriu, tomando o chá. — Só que esse chá... está cheio de folhas soltas — comentou, olhando para os resíduos boiando no líquido, sem saber por onde começar.
Gu Fan coçou a cabeça, envergonhado; não era bebedor de chá, aquele “Estrela do Céu” deveria estar guardado havia anos, intocado. Ademais, onde conseguiria dinheiro para comprar chá de verdade? Água era-lhe suficiente.
— Agora que já reconheceste este pingente como teu, não precisarás abrir a boca para falar comigo fora daqui; basta comunicar-se mentalmente — disse Mestre Yue, soprando as folhas no chá antes de dar um gole.
Aquilo maravilhou Gu Fan; jamais lera sobre tal prodígio nos livros.
— Chega de conversa fiada — Mestre Yue pousou simbolicamente a xícara, fitando Gu Fan —, quanto sabes sobre datar o cultivo?
— Hum... não muito — respondeu Gu Fan, um tanto encabulado, pois só conhecia o que estava nos livros familiares.
— A via marcial é infinita; quanto aos estágios, passando-se dos níveis Inato e Pós-natal, considera-se que se adentrou de fato no mundo do cultivo — explicou Mestre Yue, pausadamente.
Seu pai estava no nível Inato, o que já o tornava quase invencível nas fronteiras do Reino Li, e mesmo assim, isso ainda não era considerado o verdadeiro início do cultivo. Gu Fan sentiu-se atordoado.
— Os dois primeiros estágios servem apenas para temperar o corpo através dos meridianos; ainda não se pode cultivar técnicas marciais, portanto, não constituem o verdadeiro caminho. Diga-me, sabes o que são técnicas marciais?
Gu Fan acenou, incerto.
— Em seguida vêm os estágios de Guerreiro, Mestre Marcial, Rei Marcial, Imperador Marcial, Soberano Marcial... mas isso, garoto, está longe de teu alcance por ora; quando chegar a hora, te explicarei — disse Mestre Yue.
— Tudo bem — Gu Fan mostrou-se insatisfeito; tais conhecimentos, afinal, não constavam nos livros de sua família.
— Saber disso agora não te trará benefício algum; melhor não alimentar ambições vãs — Mestre Yue não se importou com a decepção de Gu Fan.
— E o senhor, Mestre, em que estágio está? — perguntou Gu Fan.
Mestre Yue esboçou um sorriso presunçoso.
— Quando saíres deste mundo, quem sabe te diga.
— Sempre evasivo... Diga se quiser! — pensou Gu Fan, irritado com os mistérios do velho.
— Presta atenção — Mestre Yue prosseguiu. — As técnicas marciais dividem-se em quatro níveis: Mortal, Humano, Terrestre e Celestial; cada nível subdivide-se em inferior, médio e superior. Porém, técnicas mortais são, por vezes, até mais raras que as celestiais, pois costumam ser excêntricas.
— E os estágios dos guerreiros também se dividem em três fases: inferior, médio, superior? — indagou Gu Fan.
— Mais ou menos: inicial, intermediário, avançado e ápice. No ápice, está-se prestes a romper o próximo estágio; mas nos níveis Inato e Pós-natal não há tais divisões — esclareceu Mestre Yue, sorrindo.
— E as bestas demoníacas, como se classificam? — perguntou Gu Fan novamente.
— Correspondem exatamente aos estágios humanos — Mestre Yue respondeu de forma sucinta.
— E o talento? Como se mede o dom para o months cultivo?
— Ouvi dizer que cada indivíduo possui diferentes afinidades elementares. Como se determina isso?
— As seitas também possuem classificação, correto?
Gu Fan prosseguia, incansável, em suas perguntas.
— Pergunta, pergunta, perguntas sem fim; quando chegar a hora, saberás por ti mesmo. Preciso mesmo ensinar coisas tão triviais? — Mestre Yue já se mostrava impaciente.
— Hehe — Gu Fan sorriu, meio sem graça.
— Agora, falemos de tua constituição — a voz de Mestre Yue fez Gu Fan imediatamente se sentar ereto. Era esta a dúvida que o atormentava havia mais de uma década.
— O Corpo do Fogo Celestial... Eu mesmo só soube dele através de antigos registros. Não fosse por ti, jamais acreditaria que tal constituição pudesse existir — Mestre Yue ergueu o olhar, como quem vasculha memórias.
— Certa vez, adentrei uma tumba ancestral e lá encontrei este pingente. Ao mergulhar minha consciência nele, deparei-me com um vasto mundo, repleto de livros e segredos. Não sei quantos anos passei lendo, até minha alma ficar presa ao pingente, sem mais conseguir sair — Mestre Yue fez uma pausa.
— Este jade, de tempos em tempos, aparece aleatoriamente em algum lugar do mundo, mas seu material é tão resistente que jamais se danificou, até o dia em que o encontraste.
— Presta atenção, rapaz, pois o que direi agora mudará teu destino — Mestre Yue falou com solenidade.
— O Corpo do Fogo Celestial é capaz de atrair os elementos do fogo numa velocidade dezenas de vezes superior à dos comuns; sua cultivação pode avançar a passos de gigante. Se os registros forem verdadeiros, não seria exagero chamar tal pessoa de monstro.
— Diz-se que o lendário Deus-Sol e o Deus do Fogo possuíam essa constituição. Mas, que eu saiba, tu és o único portador vivo deste dom.
Gu Fan escutava, boquiaberto; seres tão poderosos compartilhavam com ele a mesma essência. Sendo assim, não deveria ele cultivar com facilidade? Por que, então, não conseguia?
— Contudo, sendo um corpo divino, não pode ser despertado como um talento trivial; requer uma combinação específica de elixires — Mestre Yue, como se lesse seus pensamentos, continuou.
— O que preciso reunir? Diga logo, irei preparar imediatamente! — Gu Fan já mal podia conter a ansiedade. A chance estava ali, após tantos anos de humilhação, finalmente poderia reverter sua sorte.
— Ouve com atenção — disse Mestre Yue, impassível. — Três raízes de grama-terrestre, três folhas de trevo, uma flor bicolor, sangue de fera demoníaca, cauda de escorpião de areia...
Gu Fan anotou cuidadosamente; a maioria dessas ervas era comum, facilmente encontrada em qualquer loja. O sangue de besta demoníaca também podia ser comprado em restaurantes maiores, pois alguns o apreciavam na culinária, ainda que fosse inútil para a maioria das pessoas.
— E, não se esqueça, preciso de um quilo do melhor chá. Se possível, chá celestial das montanhas de neve; este chá comum está me arranhando a garganta — concluiu Mestre Yue.
Gu Fan sentiu uma sombra atravessar-lhe o rosto; onde arranjaria dinheiro para tal luxo? Mesmo que tivesse, seria impossível adquirir tal raridade — que se contentasse com os restos de folhas.
Ao terminar a explicação, o corpo de Mestre Yue foi sendo lentamente absorvido de volta ao pingente.
— Vai dormir, rapaz; amanhã te aguarda um árduo dia — anunciou, a voz tornando-se cada vez mais distante.
— E mantenha este pingente sempre contigo; ele te fará bem à saúde — a voz de Mestre Yue ecoou suavemente, antes de sumir por completo.