Capítulo Três: Tudo Preparado
Ainda antes do alvorecer, Gu Fan foi despertado por Yue Lao.
— Velho Yue, que horas são estas? Não deixam ninguém dormir em paz — murmurou Gu Fan, esfregando os olhos e bocejando sem parar; àquelas horas, costumava estar ainda perdido nos sonhos.
Yue Lao bateu levemente na cabeça de Gu Fan.
— Você não entende nada, rapaz. O plano de um dia começa pela manhã, especialmente para os cultivadores do elemento fogo; as primeiras horas são de suma importância.
Gu Fan lavou o rosto, tentando dissipar a sonolência.
— Vá para a colina dos fundos, assim evita ser visto — sugeriu Yue Lao, desprendendo-se em forma de alma e puxando Gu Fan consigo em direção ao bosque.
Gu Fan, perplexo, não fazia ideia das intenções de Yue Lao.
— Depois de uma noite de sedimentação, os elementos de fogo encontram-se em baixa atividade. Ao despertá-los com energia semelhante, obtém-se o melhor efeito de cultivo — explicou Yue Lao, encontrando um espaço amplo e instruindo Gu Fan a sentar-se de pernas cruzadas.
— Mas meus meridianos ainda não estão desbloqueados, como vou despertar os elementos? — reclamou Gu Fan, resmungando.
— Sinta com o coração os elementos de fogo dispersos entre o céu e a terra — lembrou Yue Lao. — Relaxe, é imprescindível relaxar. Precisa alcançar um estado em que sinta ser o único neste mundo.
Enquanto instruía Gu Fan, Yue Lao apanhou um galho e traçou um círculo ao redor do rapaz, desenhando diversos símbolos no chão.
Qualquer entendido reconheceria, de imediato, o esboço primitivo de uma formação de concentração espiritual.
No centro do círculo, Gu Fan fechou os olhos. Diferente das suas tentativas anteriores, agora, embora consciente do processo, sentia de fato a presença dos elementos flamejantes do mundo, que lentamente convergiam em sua direção.
— De fato, digno de um corpo divino lendário — murmurou Yue Lao, assentindo com satisfação.
O ar, sob a manipulação de Gu Fan sobre o fogo, aquecia gradualmente.
— É como quando pinto — pensou Gu Fan.
Os elementos de fogo se acumulavam sobre ele, levando sua resistência ao limite; percebeu que, se não interrompesse, seria consumido pelas chamas que atraíra.
— Agora! Inspire profundamente! — bradou Yue Lao. — Respire com força, repetidamente, não pare!
Gu Fan obedeceu às ordens, e a cada inspiração, o fogo no ar ao seu redor rareava, a temperatura voltando ao normal.
Seu rosto estava rubro, sentia que, ao abrir a boca, poderia cuspir fogo.
— Muito bom, muito bom — elogiou Yue Lao, aproximando-se para dar-lhe um tapinha no ombro. — Apenas com a respiração foi capaz de absorver tanto; seu futuro é ilimitado.
Gu Fan levantou-se e fez uma reverência. Apesar da dor intensa nos músculos, percebia claramente que algum elemento fluía por seus meridianos, sinal de que haviam sido desobstruídos.
— Pronto, vá se lavar, ainda é cedo. Banhar-se ajudará a aliviar a tensão — aconselhou Yue Lao, sorrindo antes de encolher-se e retornar ao pingente de jade.
A performance de Gu Fan surpreendeu-o; planejara desbloquear os meridianos em três etapas, mas, para seu espanto, conseguiu tudo de uma vez.
Após lavar-se e vestir-se com roupas limpas, Gu Fan colocou o pingente e saiu pelos portões da mansão Gu.
— Rapaz, saiu para comprar coisas, trouxe dinheiro? — ouviu a voz descontraída de Yue Lao. Afinal, a casa de Gu Fan não era luxuosa como a de um jovem rico; sem dinheiro, ninguém lhe venderia nada.
— Cale a boca — retrucou Gu Fan. Aquele velho, por mais sábio que fosse, cada frase parecia atingir-lhe o coração; havia trazido todas as economias consigo.
— Se faltar dinheiro, penhore o pingente de jade, e eu continuo aqui dentro — provocou Gu Fan, embora jamais cogitasse tal ato; para cultivar, dependia de Yue Lao.
— Não me importo. Embora não possa sair, não morro aqui dentro. Que diferença faz esperar mais alguns séculos? Mas você, sem minha ajuda, ainda quer cultivar? Sonhe! — retrucou Yue Lao; ambos sabiam que era uma brincadeira.
— Está bem, está bem, já me rendo — Gu Fan preferiu encerrar a conversa; nunca conseguia levar vantagem com aquele velho.
— O gengibre mais velho é sempre mais picante — murmurou.
Sem responder, Gu Fan dirigiu-se ao distrito comercial central.
— Senhor, embrulhe isto para mim.
— Não pode fazer um preço melhor? Eu venho sempre.
— Quer, leva; não quer, pode ir embora.
— Maçã caramelada, maçã caramelada!
— Liquidação total, amanhã fecharemos, hoje vendemos abaixo do custo!
...
A área comercial do centro era completamente distinta; a mansão Gu, situada na zona oeste da cidade imperial, era periférica, quase rural, com poucos comerciantes. Comparada ao centro, parecia provinciana.
Gu Fan, habituado, chegou a uma loja conhecida, pertencente a um amigo de seu pai; costumava visitá-la em festividades. O estabelecimento vendia ervas medicinais.
— Tio Tong! Tio Tong! — chamou Gu Fan ao entrar.
— Jovem senhor, o patrão saiu hoje. Diga-me o que deseja comprar — respondeu um funcionário, curvando-se diante de Gu Fan.
— Entendo — lamentou Gu Fan; com o tio Tong, talvez gastasse menos.
— Poderia verificar o preço destas ervas? — pediu, tirando do bolso uma lista anotada e entregando ao atendente.
Este examinou os nomes, cogitando.
— Raiz terrestre, temos; flor bicolor, também; trevo de quatro folhas, igualmente... Mas o rabo de escorpião do deserto já acabou.
— Não é um ingrediente comum? Não deveria estar disponível todos os dias? — Gu Fan, ansioso.
— Antes havia sempre, mas ultimamente tudo mudou. Na floresta fora da cidade, apareceu um escorpião gigante, com mais de dois metros, devorando os menores. Muitos mercenários tentaram enfrentá-lo e não voltaram. Por isso, faz tempo que não temos esse produto. — O atendente desculpou-se. — Talvez deva procurar em outra loja?
— Certo, então embrulhe o que tem disponível — decidiu Gu Fan após breve reflexão.
— Pois não — respondeu o atendente, indo buscar as ervas no depósito, pois era arriscado deixá-las expostas.
Alguns minutos depois, retornou com um pequeno saco de tecido e, após calcular no ábaco:
— Sete moedas de ouro, ao todo.
Gu Fan sentiu o golpe. Embora fosse o primogênito da casa Gu, nos últimos anos, devido ao declínio da família, recebia apenas algumas moedas de prata por mês; se não fosse cuidadoso com gastos, jamais conseguiria comprar aquelas ervas.
— Aqui está — contou o dinheiro, colocou sobre a mesa, trocou o pagamento pelo saco de ervas e saiu.
— E agora, Yue Lao? — indagou, já que fazia tempo que não havia abastecimento; nas demais lojas, o cenário era igual.
— Que tolice — ouviu a voz de Yue Lao. — O rapaz já disse: fora da cidade há um escorpião gigante. Mate-o e está resolvido.
Gu Fan sentiu um calafrio. Não era brincadeira; ele mesmo?
— Entre os mercenários havia muitos cultivadores avançados; se eles não conseguiram, como eu poderia? — pensou Gu Fan. Yue Lao falava como quem não tem nada a perder; se tantos falharam, não era tarefa fácil.
— Deve ser apenas uma besta demoníaca do nível inicial, nada temível — afirmou Yue Lao, confiante. Para ele, níveis de cultivo eram como insetos comuns; era apenas um escorpião.
Arriscaria? Entre não poder cultivar e ser humilhado, preferia tentar. Para Gu Fan, ser desprezado era pior que a morte; com coragem renovada, preparou-se para sair da cidade.
— Vai sair sem saber o caminho? Nem tem arma; com as mãos nuas, não quebraria nem o casco do escorpião — advertiu Yue Lao, impedindo a imprudência de Gu Fan. Ele era confiante, mas não queria que o rapaz se tornasse comida do escorpião.
Gu Fan raciocinou: se Yue Lao confiava, por que temer? Acalmou-se, percebeu que sua morte não seria benéfica para Yue Lao, então decidiu seguir o conselho e comprar uma arma adequada.
Na loja de armas, Gu Fan examinou as opções na parede.
— Espada longa? Mas não sei manejar.
— Arco? Impossível, não tenho força para tensionar um arco gigante.
— Adaga? Não serve, é arma de assassino.
Estava indeciso.
— Rapaz, escolha aquelas luvas de combate — sugeriu Yue Lao.
— Mas também não sei lutar com os punhos — lamentou Gu Fan.
— Eu sei que você não sabe nada, mas como mestre, tenho meus métodos — respondeu Yue Lao, confiante. Com tantos anos de experiência, não seria incapaz de lidar com um escorpião; se soubessem disso, seria alvo de risos. Até mesmo uma mulher frágil teria solução sob sua orientação.
Gu Fan gastou todo o dinheiro restante para comprar as luvas; o dono só lhe fez desconto por ser criança, mas agora sua bolsa estava completamente vazia.
— Vamos, falta só mais uma coisa.
Meia hora depois...
Gu Fan estava diante de uma taverna, sem saber o que fazer: o dinheiro acabara, não podia comprar sangue de besta demoníaca.
— Já que terei de matar o escorpião, posso usar seu sangue, certo? — perguntou, vendo nisso uma oportunidade.
— O sangue do escorpião do deserto é verde, fundido ao veneno; se não teme a morte, pode tentar — respondeu Yue Lao, com desdém, lançando um balde de água fria sobre Gu Fan.
Sem alternativas, teria de arriscar; orgulho não mata a fome. Se não servia, de que adiantava? Gu Fan pensou enquanto entrava na taverna.
— Senhor, posso lavar pratos o dia todo em troca de um pouco do sangue da grande lebre demoníaca?