Capítulo Quarto: Abater o Escorpião de Areia, Salvar a Princesa
Ao cair da noite, só então Gu Fan retornou em direção à residência dos Gu, carregando volumosos embrulhos com as compras que fizera. Os guardas à porta não fizeram maiores perguntas—afinal, estavam habituados a ver o jovem senhor regressar frequentemente com sacolas repletas de pincéis e tintas. Gu Fan entrou em seus aposentos, guardou cuidadosamente os objetos comprados no armário, evitando que algum criado viesse a perceber.
— Mestre, iremos agora? — indagou Gu Fan, a voz permeada de impaciência; desejava iniciar imediatamente o cultivo.
— Por que tanta pressa, rapaz? O cultivo não se faz em um momento de afobação; ansiedade não cozinhou feijão algum — respondeu o Velho da Lua, num sussurro indulgente.
— Antes, observe isto. Leia tudo antes de falarmos mais — disse ele, flutuando etéreo, trazendo em mãos um livro.
O que seria aquilo?
Gu Fan recebeu o volume: “Punho das Chamas Ardentes”. Seria esta, acaso, uma técnica marcial? Examinou-a com atenção.
— Mestre, ainda nem iniciei o cultivo; não conseguirei aprender isto agora — folheou o livro e o depositou sobre a mesa.
— Apenas leia e decore o conteúdo — instruiu o Velho da Lua.
— Embora não possas cultivá-la, poderás utilizá-la com auxílio de forças externas — explicou, iluminando de súbito a mente de Gu Fan.
— Quer dizer que, reunindo os elementos de fogo do ar e concentrando-os nas mãos, posso utilizá-los como técnica marcial?
O Velho da Lua assentiu, sorrindo. Havia um motivo para pedir que comprasse as luvas: caso utilizasse as mãos nuas e perdesse o controle, poderia inutilizá-las. As luvas, de couro por dentro e ferro por fora, aumentavam a margem de segurança.
— Se lançares técnicas de fogo em locais ricos neste elemento, o poder será multiplicado; o mesmo vale para outras técnicas. Em contrapartida, usar fogo dentro d’água é como tentar apagar incêndio com chá—não surte efeito algum — esclareceu o Velho da Lua.
Gu Fan memorizou cuidadosamente as palavras do mestre.
— Pronto, estude e prepare-se. Vou repousar. Partiremos ao alvorecer.
— Sim, mestre — respondeu Gu Fan, unindo os punhos em gesto de respeito.
Algumas horas mais tarde, a aurora apenas insinuava sua presença.
— Mestre, é hora de partir — Gu Fan ajeitava as vestes; comprara, na véspera, um traje negro para evitar expor sua identidade. Guardou as roupas antigas dentro do pingente de jade, uma funcionalidade descoberta apenas na noite anterior.
— Suas meias fétidas quase me mataram! Não podia lavar melhor os pés? — resmungou o Velho da Lua, indignado. Gu Fan, ao invés de guardar objetos úteis, abarrotara o pingente de meias, perturbando-lhe o sono.
— Da próxima vez serei mais cuidadoso — respondeu Gu Fan, sem graça.
— Duvido muito — murmurou o mestre.
Gu Fan abriu a porta do quarto com todo o cuidado e, com auxílio do Velho da Lua, escalou o muro da residência—evitar a entrada principal era prudente para não ser notado.
— Lembras da localização? — indagou o mestre.
— Sim, ontem confirmei com os mercenários. Fica um pouco ao sul da Montanha Dente de Tigre. Tirando o escorpião gigante, não há outras bestas selvagens relevantes por lá.
— Ouvi dizer que pode haver um tesouro espiritual da natureza.
— É o habitual; tesouros assim costumam ser protegidos por bestas demoníacas. Este escorpião provavelmente o vigia há anos e, agora que a erva madura, redobra a vigilância para evitar que seja roubada — analisou o Velho da Lua.
— Portanto, devemos agir rapidamente; se o escorpião devorar o tesouro, será ainda mais difícil adentrar seu território e tomar o ferrão — apressou o mestre.
Gu Fan, ouvindo isso, acelerou o passo. Vestido de negro, desaparecia na noite, restando apenas o som abafado de suas passadas.
— Chegamos.
Ocultando-se sob uma árvore distante, Gu Fan observou a Montanha Dente de Tigre; o escorpião deveria estar em uma caverna próxima dali.
De repente, o solo tremeu violentamente, assustando Gu Fan.
— O que foi isso!?
Uma labareda irrompeu da caverna.
— Atenção, há combate lá dentro — alertou o Velho da Lua.
— Aproximemo-nos em silêncio; talvez possamos colher os frutos do embate sem nos expor.
— Exatamente — concordou Gu Fan, aproximando-se sorrateiro. — Julgando pelo calor e poder daquela chama, deve ser uma técnica marcial imperfeita de alguém no Reino Xiantian — analisou o Velho da Lua. — Apesar da aparência impressionante, a temperatura é baixa; o adversário não é tão forte. Nossa chance permanece grande.
Apenas o Velho da Lua poderia desdenhar assim do Reino Xiantian; afinal, o pai de Gu Fan, em tal nível, já fora suficiente para guardar uma fronteira.
Gu Fan aproximou-se silenciosamente da caverna, onde o combate continuava sem que notassem sua presença.
— É uma menina! — exclamou, surpreso. Apesar da penumbra, pela estatura parecia ter doze ou treze anos.
— Tem talento razoável, cerca de um décimo do que eu tinha em minha juventude — vangloriou-se o Velho da Lua.
A jovem enfrentava o escorpião: sucessivas labaredas explodiam contra o casco da criatura, sem deixarem marcas. Em contrapartida, a menina já estava coberta de feridas, vítima das pinças e do ferrão monstruoso.
— Seu inseto asqueroso, esta princesa vai acabar com você! — bradou ela, furiosa, engolindo uma pílula que imediatamente elevou seu vigor. Recomeçou o ataque com renovada violência.
— Vejo que tens facilidade para encontros fortuitos, rapaz — gracejou o Velho da Lua, num tom malicioso.
— Hein? — Gu Fan, confuso.
— A menina está prestes a sucumbir — acrescentou o mestre.
— Mas ela parece dominar a luta, o escorpião mal resiste ao ataque cerrado — estranhou Gu Fan.
— Na aparência, sim, porém note: o escorpião recua, mas não está realmente ferido. Já a menina, sua energia se esvai rapidamente.
— E ouviste? Ela se intitulou princesa. Se a salvares... — riu o Velho da Lua, insinuante.
Este velho só pensa em tolices, deve ter enlouquecido confinado ao pingente, pensou Gu Fan, um tanto contrariado. Antes de virmos, encheste-me de confiança; agora, só incerteza.
— Venha, vou preparar uma formação para ti — avisou o mestre, comunicando-se mentalmente.
— Certo — assentiu Gu Fan.
O Velho da Lua agiu com destreza, mas, desta vez, não era apenas uma simples formação de concentração de energia—era algo bem mais complexo.
— Trata-se da Formação dos Oito Lados; aumentará teu foco. A menina não suportará muito tempo, apressa-te nos preparativos — exortou o Velho, pois, se tardasse, ela morreria ali mesmo.
Gu Fan não hesitou e tratou de se preparar.
Enquanto isso, a situação dentro da caverna havia se invertido.
— Maldição, devia ter trazido o tio Mo — lamentou a princesa, já em desvantagem; o efeito da pílula secreta passara e, debilitada, não tinha forças nem para fugir. Era a mais querida do palácio imperial de Qi, viera com a comitiva por diversão e, ouvindo rumores do escorpião gigante, aventurara-se sozinha—e agora pagava com a vida.
As lágrimas brotaram e, aos poucos, desfalecida, perdeu a consciência.
O escorpião, alheio à compaixão, via nela apenas uma invasora a ser eliminada. As pinças monstruosas ergueram-se para o golpe fatal.
— Maldito inseto, morra! — bradou Gu Fan, surgindo de súbito; seu punho envolto em chamas reais.
O escorpião urrou de dor; a pinça deformou-se sob o impacto.
— Então é isto o poder! — Pela primeira vez, Gu Fan sentiu a força verdadeira; era como se aquele escorpião fosse uma mera formiga, e destruí-lo fosse trivial.
— Não te percas em devaneios; tua condição não dura — advertiu o Velho da Lua, trazendo-o de volta à realidade.
De fato, era o poder dos elementos de fogo do ambiente—logo dissipar-se-ia.
Gu Fan golpeou o escorpião sem cessar; sob tamanha temperatura, a criatura não pôde revidar.
Por fim, com um golpe derradeiro, o fogo extinguiu-se de seus punhos e o escorpião jazia em carne viva.
— Vá com calma, rapaz! Assim não sobrará nada para vender, e estás quase falido — censurou o Velho da Lua.
Gu Fan coçou a cabeça; não era falta de vontade, mas de controle. Melhor seria cuidar do campo de batalha.
Arrastou o cadáver do escorpião para o lado.
— Bem... O núcleo do ferrão de um escorpião pequeno é difícil de extrair, por isso se leva o ferrão inteiro; mas este é tão grande que basta retirar o núcleo. Isso, exatamente esse — orientou o Velho, guiando Gu Fan na extração, após o que recolheu-se ao pingente.
— Vou descansar; o resto é contigo.
Gu Fan voltou-se para a princesa caída no chão. Apesar das múltiplas feridas, era evidente que se tratava de uma bela jovem.
— Melhor levá-la para a caverna. — O escorpião gigante já devorara os menores; agora, só restavam ele, a princesa e uma erva desconhecida—o local tornara-se relativamente seguro.
— Vou dormir um pouco mais, recuperar as forças — pensou. Faltavam duas ou três horas para o amanhecer. Bocejando, Gu Fan deitou-se ao lado da princesa, escolhendo um canto confortável.